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Crioulo, fado e saudade


Ninguém o pode negar:  A língua portuguesa está viva, recomenda-se e festeja-se a cada ano que passa. Celebrando o encontro entre sabores, cheiros e ritmos de quatro continentes.
Foi há mais de cinco séculos que os marinheiros cruzaram os oceanos, como uma melodia cruza uma pauta, e domaram um globo inteiro só para descobrir um novo mundo. Hoje as ondas, sonoras, partilham ritmos de África, Brasil, com este nosso cantinho ocidental.

De um rectângulo recortado, pequeno e encaixado numa península a sul da Europa, Portugal conseguiu tornar-se num império, que ainda hoje sobrevive. Já não são reis, nobres e senhores que o demandam, nem muito menos punhos firmes da ditadura e dos arsenais, mas sim uma palavra: A lusofonia.

A saudade é ponto de partida, seguida pelo pranto do fadista, do choro da guitarra e do ritmo do adufe, ser lusófono é ser preto, branco, mulato; tocar guitarra portuguesa e dançar kuduro. Pode até parecer estranho e, para os mais nacionalistas, castigar a identidade de um povo mas a verdade é que os musicólogos, historiadores e críticos da área assumem que não existe uma música puramente portuguesa.

Assim como os negros do Blues e do Folk nos Estados Unidos  influenciaram a música daquele pais usando o choro e as lamurias dos seus avós escravos, o fado também é um produto da experiência musical dos hoje chamados PALOP, assim  como de todas as trocas mercantis feitas entre países de todo o mundo. É evidente que Amália Rodrigues veio a influenciar o fado e a torná-lo no que hoje ouvimos, pois tornou-o poético e urbano, mas até ela  sofreu influências dos “ares” franceses durante o seu processo de criação.

Nesta mescla cultural o fado não está só, visto que até o próprio folclore nacional está crivado de “estilhaços” musicais dos nossos semelhantes lusófonos. Já Zeca Afonso o dizia por vezes quando tocava temas como Galinhas do Mato, que gozavam da experiência interventiva do autor português aliada a ritmos populares do interior do país e de Africa. Seguem-se nomes como Sara Tavares, Mariza ou Ana Moura que neste momento unem o melhor do mundo lusófono as experiências da pop e do fado.

Mas para que ouvíssemos estes nomes, muito teve de ser feito, visto que apesar do povo português estar aberto à imigração e às trocas culturais, residiram durante anos, nas mentalidades, um certo cepticismo em relação à música africana e brasileira. Durante os anos 60 a 80, a música lusófona sobreviveu muito à base dos canta-autores brasileiros Caetano Veloso ou Chico Buarque que assumiram uma grande importância na inserção de um novo folego musical no nosso país, acompanhado de sotaques cariocas e crioulos.

Os anos 80 deram a Portugal o boom discográfico que o país de camões já precisara há muito. Para além de projectos com olhares mais anglo-saxónicos, como os Táxi, os Heróis do Mar ou os GNR, surgiram nomes que viriam a unir a reconstruir a lusofonia das canções. António Variações ou a Banda do Casaco recuperavam, na época, as “malhas” beirãs, transmontanas e minhotas, muitas delas idênticas às de Bonga, Waldemar Bastos ou até mesmo Danny Silva. A verdade é que este novo olhar despertou a vontade de ouvir “novos” ritmos que abriram a porta a Daniela Mercury, Lura, Tito Paris, entre muitos outros. Por cá o hip hop começou a penetrar a pouco e pouco. Exemplo disso é a compilação “Rapública”, de onde surgiram nomes como “Black Company” que influenciaram o trabalho de dezenas de mc’s nacionais, entre eles Sam The Kid, Melo D, Valete ou Nigga Poison.

Mas este capítulo das influências dar-nos-ia pano para mangas, visto que o hip hop é como uma máquina do tempo que vai recuperando os velhos êxitos adormecidos. Cool Hipnoise deram nova vida à Bossa Nova, mais recentemente os Buraka Som Sistema deram electricidade ao revoltado e reivindicativo kuduro Angolano e até o Reggae foi visitado pelos portugueses através dos “históricos” Kussondulola, dos Terrakota ou dos Mercado Negro.

A música tem este poder de falar por si mesma, de se poder tornar um código linguarejo que remistura lembranças, pessoas, sentimentos, povos e de novo a saudade. A mesma de Cesária Évora, cabo-verdiana, a mesma dos Macacos do Chinês, Amadorenses, a mesma de dez milhões de portugueses que ao unirem a força das línguas, musical e verbal, com os seus “irmãos” lusófonos, dariam ao mundo muito mais do que apenas um buraco orçamental.  


O conceito de música portuguesa


Assim como Zeca Afonso misturou à sua música de intervenção toda a influência dos ritmos africanos que adquiriu na sua estadia em Moçambique e Angola, o hip hop português sofreu também ele uma miscigenação com a cultura africana. Corria o ano de 2000 quando eu, agarrado ao clássico The Marshall Mathers Lp do Eminem, dei de caras com o hip hop português a sério pela primeira vez. Já tinha em tempos escutado alguns êxitos radiofónicos de rap como o «Nadar» dos Black Company e alguns temas do 3º Capítulo dos Da Weasel. Mas foi o álbum Introdução a Uma Vida Banal - O Manual, que me atrelou ao hip hop nacional durante largos anos. 

Os Da Weasel levaram-me a mergulhar a fundo no hip hop lusitano e, consequentemente, fui descobrindo artistas como Mind da Gap, Sam The Kid e Chullage, entre outros. Este último, em especial, conseguiu fazer algo que até hoje é, a meu ver, um verdadeiro exercício de mistura entre a cultura portuguesa e a cabo-verdiana. Ao ouvir pela primeira vez o Rapresálias, constatei que Chullage manteve a preocupação não só de fazer a sua música, mas também de a cantar em ambos os idiomas de forma a representar ao máximo as duas culturas. Ao escutar atentamente o álbum é impossível ser-se português e não sentir a curiosidade pela cultura cabo-verdiana e vice-versa. O próprio levanta o véu sobre vários costumes e tradições de Cabo Verde, nas suas letras, e ainda inclui, em alguns temas, instrumentos e ritmos africanos. No disco que se seguiu, Chullage conseguiu frisar ainda mais essa necessidade de cruzamento. Rapensar, apesar de não ser o melhor álbum do artista em questão, é aquele que, na minha opinião, melhor retrata toda esta vontade de Chullage atingir um ponto de fusão entre a música portuguesa e a cabo-verdiana.

Talvez esta seja uma das formas de definir o conceito de música portuguesa: uma mistura de influências adquiridas pelas diversas interferências que sofremos na nossa cultura, derivadas da nossa vontade de descobrir novas terras, novos povos, novas vivências e, consequentemente, nova música.

Crítica ao álbum de Sir Scratch


Sir Scratch
Em Nosso Nome
Footmovin; 2012

Nota: 6,5/10 

Sir Scratch está de regresso com o seu segundo álbum de originais, desta feita, Em Nosso Nome. Lançado em novembro deste ano, o álbum demonstra um Sir Scratch numa atitude ofensiva, reclamando aquilo que considera seu legado, como mc da velha escola: um hip hop sem ostentação e com foco principal nos princípios que defende no tema «Pishback». É através de uma introdução forte, assente num instrumental de Ruas, que o rapper da Amadora relembra o seu legado transversal às participações em mixtapes como a do DJ Cruzfader e Bomberjack, e na compilação 1100% do Pensamento, do DJ 30 Paus, ainda na altura assinando como Plunasmo – grupo do qual fazia parte lado a lado com o seu irmão KapOne.

Mais do que nunca, Sir Scratch aposta numa forte componente participativa, onde convida, não só outros mcs, mas também músicos completamente fora do panorama do hip hop, conseguindo, assim, trazer alguma multiplicidade musical ao seu álbum. São exemplos disso, canções como «Por Medo», onde Tim (Xutos e Pontapés) contribui com a sua voz na parte do refrão, e «Males, Mares e Marés», que conta com a participação de Noiserv, numa alusão marítima que flutua sobre uma base construída por DJ Scotch. Mas, não são apenas músicos que contribuem para a diversidade deste trabalho de Scratch, na canção «Se Tás Nisto Por Desporto», o mc convidou o comentador da Sport TV Carlos Barroca para dar voz a um paralelismo entre uma competição desportiva e o tema, pondo à prova o skill e o potencial vocal do artista. E é mesmo esse skill uma das suas principais armas, como já fora outrora comprovado em canções como «Nada a Perder» do álbum Cinema: Entre o Coração e o Realismo e «Manias» da compilação Poesia Urbana Vol.1. Scratch não poupa em circunstância quando quer usar e abusar do seu flow e dos seus jogos de palavras, que habitualmente transportam um duplo sentido na mensagem. Exemplo disso, neste álbum, é o tema «Faz Parte», no qual o rapper realça quem faz parte do movimento e despreza quem não se enquadra na ideologia e na atitude pretendida.

Ainda em torno da mesma temática, Scratch reforça, na faixa «Tendências», a luta contra quem anda no hip hop por moda, recorrendo, metaforicamente, ao duelo clássico entre o rato e o gato, no qual os gatos são personificados como os manda chuvas do movimento e os ratos como os intrusos. Luanda Cozetti, da banda brasileira Couple Coffee, coopera em «Capoeira», tema no qual o artista compara a sua luta interior à dança brasileira em questão. O som mais sentimental «Fragmentos» abre para «A Crise», tema no qual Sam The Kid contribui com a parte vocal e instrumental e que junta Sir Scratch a Kalaf (Buraka Som Sistema) e ao vocalista de Klepth, Diogo Dias. Já em «Criatividade», o rapper fala da impossibilidade de se manter neutro para com as suas influências e assume transparecer nas rimas e no flow alguma dessa preponderância.

A nível instrumental, esperava-se que a variedade de produtores, presentes no álbum, trouxesse uma maior diversidade sonora, no entanto, fica a ideia que alguns beats podiam ter sido explorados de forma mais criativa. É uma exceção à regra o tema «Quem Tudo Quer», que para além da complexidade conseguida por João Gomes (teclas), João Cabrita (Saxofone) e Francisco Rebelo (Baixo), ainda conta com a colaboração de Dino no refrão. Talvez seja a canção mais interessante e mais rica de todo álbum, que acaba com um belo poema na voz da dramaturga Ingrid Fortez.

Apesar das 17 faixas, mais duas de bónus, poderem induzir em erro, ao ponto de pensarmos estar perante um álbum longo e enfadonho, a verdade é que Em Nosso Nome torna-se um registo de audição leve que depressa flui faixa-a-faixa com alguma variedade temática, sempre acompanhado do bom desempenho lírico de Sir Scratch. Um bom trabalho a merecer uma boa nota.




  

Valete no Campo Pequeno


O melhor do hip hop nacional reunido no Campo Pequeno, Xeg, Regula, Bónus, Adamastor, Sam the Kid, “Fez-se história” disse Valete no final do concerto.

Foi uma “cena séria” dizia Valete ao longo de todo o seu concerto, enquanto cantava e contestava a vida dos «Subúrbios», durante o dia ou «À Noite», e pediu no fim que “não censurem” aqueles que “vão cometer atos de desespero movidos pelo fim do estado social”. 

Valete subiu ao palco pouco depois das 23h da noite, para um publico que já tinha sido aquecido por Xeg e Regula, na primeira parte.

Sempre com Bónus e Adamastor (que fez questão de estar presente no concerto, com a garganta inflamada) Valete está em cima do palco como o Rocky está em cima do ringue. Dá pequenos saltinhos no seu canto, esperando a sua vez de atacar.
 
Cantou tudo o que esperávamos dele, e mais. Abriu com «Monogamia» e logo depois dizia “Não sabem quantos somos” em resposta a um jornalista que havia perguntado porque não fazer um concerto num local mais pequeno como o Musicbox. “Não sabem quantos somos”.

Pediu desculpa pela demora do seu novo àlbum Homo Libero, antes de Samora subir ao palco para cantar um excerto do mesmo (com Samora subiu também uma violinista), uma “cena séria” que teve direito a repetição.

Vimos Bónus e Adamastor cantarem sozinhos e mostrarem porque é que acompanham Valete nas suas demandas até cantarem «Canal 115» e ficámos com a sensação de que eram mesmo capazes de cuspir fogo.

Durante todo o concerto Valete teve por detrás de si videos que iam acompanhando as musicas, vimos declarações, videoclips, pequenos filmes que foram mostrando ícones de revolução, Ghandi, Martin Luther King, Malcom X, Bob Marley ou Julian Assange apareceram por trás de Valete dando força às suas letras de inssureição.

Foi com a tela que conversou em «Revelacão» virado de costas para o público, foi mantendo o diálogo com uma luz que fazia a voz de Deus e do Diabo, depois de Nuno Lopes ter subido ao palco para impressionar com «O meu País».

Além de Bónus e Adamastor, ao palco subiram também “Jimmy P”, de braço partido para uma «Ode à adolescência», Orlando Sá dos Orelha Negra ficou sozinho para «Since You've Been Gone», além de Samora e Nuno Lopes já referidos. Já para o fim foi a vez do Sam the Kid “na batalha comigo desde 1997!” para «Presta Atenção» e «Poetas de Karaoke», altura em que Xeg e Regula sobem também ao palco para de repente termos o melhor do hip hop nacional juntos e em cima do palco. 

Depois de muitas horas, o publico já estava cansado, mas para o fim estava o melhor de Valete. «Mulheres da minha vida» e «Roleta Russa» reaqueceram a plateia, «Vampiris» e «Fim da Ditadura» puseram-nos aos saltos, e depois estava na hora de acabar “Já nos estão a mandar embora”. 


Valete pediu uns minutos para “16 barras de despedida” e com «Anti-Héroi» acabou de vez.
“Fez-se história.” 


Capicua - Uma Maria bastante Capaz






Capicua - Capicua

Optimus Discos, 2012

Nota- 7,5/10








Já anda pelo Porto a fazer beats e rimas desde a década de 90, já colaborou com alguns dos DJs e produtores mais conceituados que Portugal tem para oferecer; este seu álbum contêm beats de Sam the Kid e Nelassassin, um poema de Almada Negreiros, e muitas referências de grandeza. Contudo, e apesar da sua experiência e das contribuições alheias a este álbum, Capicua soa a fresco. Tem qualquer coisa de novo.

Talvez isto se deva ao facto de ter uma vida diferente do que já esperamos de um MC - uma infância dificil, problemas com a família. Ana não provêm de uma casa assim. Talvez esta sua sonoridade seja o resultado do seu estudo académico; não é um zé-ninguém que consegue queixar-se do estado do seu país ao descrevê-lo como um masoquista que, de acordo com <<Terapia de Grupo>>, não se flagela há dois dias. Estudos estes que também se revelam no próprio nome que escolheu para se representar no mundo do Hip-Hop, com conotações bíblicas. Talvez esta frescura se deva até a ser uma MC mulher, facto que glorifica no single <<Maria Capaz>>, apesar de ser algo triste ainda ser legítimo ter de glorificar o simples facto de se pertencer ao sexo feminino, isto dois séculos após os primeiros passos do movimento femininista.


Ao ouvir este álbum, o que é certo é que a sua identidade fica marcada como única. Em <<Domingo>> revela "os porquês" de não gostar deste dia da semana, enquanto que em <<Hérois>> nos descreve uma situação conhecida demasiado bem por demasiados portugueses. Criou <<Medo do Medo>>, em que a sua maneira agressiva de rimar, aliada à sua poesia, chega a assustar um pouco, mas enfrenta com bom-humor o <<1º Dia>>. O seu amor pelas rimas é transparente em todo o álbum, dando-lhe um certo intimismo, já que com cada música ficamos a conhecer melhor a mulher por detrás do projecto.

Tal como ela própria afirma, não é uma mulher fácil, e o seu álbum também não. Aqui não se vai encontrar superficialidade, letras que soam bem sem terem sentido, ou algo sobre como sair à noite com os amigos é bom. Este álbum é mais do que isso, e apela apenas aos que sabem apreciar bons beats aliados a uma poesia deliciosa de se ouvir, sobre temas menos optimistas. Um grande álbum de apresentação.


Download gratuito deste álbum - aqui

Menina, Moça e Mulher. Sempre Capaz


Capicua
Capicua
Optimus Discos (2012)
7/10


Ana Fernandes é licenciada em Sociologia e tem um doutoramento em Geografia Humana. A par da vida académica, gravou um disco de hip-hop. Nestas lides é conhecida como Capicua. Pode ser um nome novo para muitos, mas para Capicua, o hip-hop não é certamente coisa nova. Foi por volta dos 15 anos que teve o seu primeiro contacto com a cultura hip-hop, mais propriamente com o graffiti. Do graffiti à música foram 10 anos. Dois eps (colectivos) e uma mixtape (a solo) depois, a MC que era verde, quis mostrar-se capaz (e completa) e começou a fazer planos para um disco maduro, uma coisa mais à séria. Assim surge este álbum homónimo, num registo mais autobiográfico, que pretende reduzir a distância entre a Ana e a Capicua.
A MC natural do Porto marca pela diferença. Assume à partida que teve uma infância e adolescência felizes, contrastando com alguns rappers que falam sobre infâncias traumáticas e como é crescer em bairros sociais. Assume-se pelo que é, uma das poucas mulheres a fazer hip-hop em Portugal e não esconde esse lado mais feminino e sensível, muito pelo contrário.

Capicua começa por nos dizer em «Mão Cheia», através de um texto de Almada Negreiros, que as palavras não são novas, mas que os seus sentidos podem ser reinventados. E é isso mesmo que vemos nas faixas seguintes: a mestria das suas metáforas e analogias aguçadas. «1º Dia», «Hora Certa», «Judas e Dalilas», «A Volta» e «Luas» são canções que têm um cunho mais pessoal e relatam experiências de vida. Infância, fases da vida, amores, desamores, amizades, inimizades, ambições, lutas, são alguns dos temas que transparecem nestas vivências relatadas por entre versos.
Ana cresceu a ouvir cantores como Zeca Afonso e José Mário Branco. A presença da música de intervenção na sua vida fez com que quisesse fazê-la um pouco sua e ao seu jeito, com a sua pronúncia do norte. A voz revolucionária de Capicua faz-se ouvir em músicas como «Os Heróis», «Terapia de grupo» e «Medo do Medo». Esta última é a terceira faixa do disco e a sua preferida. Fala da perda de orgulho nacional, de angústia, agonia e insegurança. Contudo tenta passar uma mensagem de força e coragem. «Nós temos direito a um futuro» é a frase que marca «Os Heróis».
«Casa do Campo» é talvez a música mais especial de todo o disco. É a única que invoca ambições para o futuro, a um nível mais pessoal. Inspirada em Elis Regina, Capicua despe-se de pretensões e expõe a simplicidade do futuro que deseja. «Um filho, um livro, um disco, uma árvore, dois amigos,
dois umbigos unidos num chão de mármore». Uma tendência cíclica, uma vez que gerações anteriores sonhavam com uma casa na cidade. Do campo para a cidade, da cidade para o campo.
«Maria Capaz» é o primeiro single do álbum e a afirmação de Capicua como uma MC para quem «o máximo é o mínimo».

Mas não é só a letra que faz uma canção. Para os beats do álbum, Ana contou com colaboradores de luxo como D-One, Ruas, Sam the Kid, Xeg e Nelassassin. É um bom disco de apresentação, um cartão de visita do hip-hop feminino, mas também de Capicua no passado, no presente e no futuro. A prova de que o hip-hop pode aparentar ser um mundo de homens, mas que a colaboração entre ambos os géneros dá frutos.

Link para download gratuito: Aqui

Crítica: Disco Capicua

Capicua/Capicua
Optimus Discos
5.5/10
2012

Tem um sotaque tão proeminente quase igualável ao de Reininho-Silvestre em «Pronúncia do Norte», ou ao de Abrunhosa nos seus discursos eloquentes. Mas aqui a estória é outra. Não é música popular, nem pop no estado puro, mas é um pop com hip e rap. De original, tem o cabelo longo, os lábios carnudos, o aspecto roliço e o cabelo apanhado uma vez ou outra. Chama-se Ana Fernandes e é rapper. A imagem de rapariga dos subúrbios (daqueles meandros inspiradores para rimas com dramas) não é imaculada. Tem pontas ou réplicas de miúda mais citadina do que (sub)urbana.
Apareceu no panorama musical de braço dado com os melhores padrinhos, como D-one, Nelassassin ou Sam The Kid. Em o «1ª Dia» aproveita para explicar porque quis fazer isto: “faço rap porque gosto, essa é a única razão”, no meio dos beats inconfundíveis de D-one. Estes instrumentais continuam em «Os Heróis» ou em «Medo do Medo» numa versão de Ana zangada. “Não vale a pena decorar a tabuada/Temos tudo o que é estudo, emprego zero”, “Eles têm medo que não tenhamos medo”. A última frase, do segundo single do seu álbum de estreia, mostra que este foi feito na ebulição de um país em crise, ao mesmo tempo que a impaciência de Ana continua em «Domingo» onde implica com “dois sábados seguidos” ou com a ”fatiota de dar a volta no shopping”. O que é preciso é uma «Terapia de Grupo» para pôr o país a mexer. “Há que falar de culpa, viver a vida adulta sem peso na consciência. É preciso uma coisa que dê furtos para sermos um país livre de paranóia, para sermos um país livre da sua história, ainda não recuperámos de uma relação difícil, quarenta e tal anos governados por um imbecil”, contesta Ana.
Mas as turras com o mundo não se limitam ao seu discurso político, adquirido enquanto crescia a ouvir José Afonso ou José Mário Branco. No meio dos seus quase tenros 30 anos, Ana ainda sofre por aquelas coisas do amor, das dúvidas e outras que tais. Diz que há «Hora Certa» de ir embora quando o gostar chega ao fim: “Foram anos que ofereci a um coração carente. Com é que eu te largo, faço o luto e mando fora, como é que eu luto contra o susto da ruptura e asseguro que não te quero no futuro”.

Mais melosa, ainda que sempre dona de uma rima pronta, feita da consciência de uma miúda endiabrada, ela parece uma igual a tantas outras. O sonho chama-se «Casa de Campo» e é uma das faixas mais criativas de todo o disco. Confessa que esta faz parte das suas exigências e que quer que esta "cheire a flores e frutos, a gomas e sugus, a doces e sumos, com lareira e fogo brando, que ilumine todo o ano, o sorriso de quem amo". "Uma casa de campo que pode ser na cidade, mas tem de ser de verdade, mesmo não tendo morada", mostra uma Ana mais infantil, romântica, que chega a referir-se ao personagem Anita dos livros de outrora, num final de cadência soft. «Sagitário», ainda nos inícios, é outro dos momentos mais surpreendentes. Agradável ao ouvido, e com o beat de Xeg (a fazer lembrar o mixtape dos Orelha Negra ou a banda do sonora do Crime do Padre Amaro), perde força nas letras, quase como a própria Ana.

Com o dedo d'O Miúdo Samuel, o single de apresentação «Maria Capaz» serve para mostrar que ela é mesmo uma Mestre de Cerimónias, mas sem qualquer tipo de cerimónias ou manias, mas muito ego. Assume-se como "comandante da guerrilha cor-de-rosa" ou uma "abelha rainha". Numa palavra, "no R A P, sou eu que reino, rapaz". E ponto final. Só que a dúvida é mesmo esta. Será Ana (ou a Maria) capaz de reinar se os rapazes já cá não estivessem. Canta os mesmos problemas, canta-os da mesma forma, canta as mesmas soluções, Fá-lo é num tom mais feminino. Com sorte se chega a uma capicua, feita de partes iguais, e da mesma sorte esta Capicua vai precisar dela. Mais díficil do que tê-la, é mantê-la. Tornar-se intemporal vai exigir-lhe mais do que ser apenas uma Maria.


 

Capicua: a crítica ao álbum homónimo


Capicua
Capicua
Optimus Discos; 2012

Nota: 7/10




Download gratuito do álbum aqui





Capicua apresenta-se como um álbum bastante fluído. Todos os 14 temas que constituem a obra da mc portuense interligam bem entre si, quer a nível de temáticas, quer a nível de instrumentais. Quem já conhece Capicua, das participações que teve em mixtapes anteriores a este primeiro registo de longa duração, sabe que a mesma investe bastante no conteúdo lírico das suas rimas e que sabe trabalhar a métrica dos textos que escreve como muitos poucos o fazem em Portugal. Capicua é, também, forte nos seus jogos de palavras e no sentido duplo que consegue dar às mensagens que transmite nos seus temas, conseguindo por muitas vezes aproveitar uma mesma frase, reorganizando as palavras nela incumbidas, reformulando por completo a ideia inicial.

E é mesmo esse dom da palavra que vem homenageado no primeiro tema do álbum. «Mão Cheia» é nada mais nada menos, que um texto do poeta Almada Negreiros recitado na voz de Tiago Barbosa, onde é realçada a importância da evolução e do reaproveitamento da palavra. Segue-se «1º Dia», tema através do qual a artista se apresenta e que serve quase como cartão de visita ao ouvinte. Quem vê o programa «Clube da Palavra», no canal Q, decerto se familiarizará com a música que se segue: «Medo do Medo» joga com a métrica de forma muito sóbria e agradável na cadência das palavras, retratando os medos que assombram, não só a artista, mas também a sociedade em geral.

Capicua reflete no álbum alguns problemas sociais derivados da situação económica portuguesa. Em «Os Heróis», a artista retrata o estado atual do mercado de trabalho e as dificuldades em arranjar emprego. «Terapia de Grupo», serve de alerta para a necessidade de não baixar os braços e não menosprezar Portugal e a alma Lusitana. Este último tema, infelizmente, possui uma discrepância de volumes entre a voz e o sample principal que o acompanha, sobrepondo-se muitas vezes à parte vocal, impossibilitando a inteligibilidade do que é dito por Capicua.

Em «Sagitário» a artista demonstra o seu potencial na vertente da narração de histórias, o storytelling. A canção fala sobre uma amizade entre um rapaz e um cavalo e uma consequente separação, executando uma metáfora com o signo astrológico do Zodíaco, representado pela figura mitológica grega, o Centauro – personagem metade homem, metade cavalo.

«Maria Capaz» é o primeiro single do álbum e conta com a produção de um dos ícones do hip hop português, Sam The Kid. Esta música representa a vertente mais ofensiva da rapper portuense, exteriorizando os seus sentimentos em jeito de punch line. Também no tema «Judas & Dalilas» se evidencia um carácter de ataque, mas desta vez mais generalizado, dirigido a “cobras e traidores”. A canção conta com a participação do mc de Abrantes, Nerve.

Destaque ainda para «Luas», tema através do qual Capicua estabelece um paralelismo entre o satélite natural e a sua pessoa, comparando as fases da lua, com as diferentes fases do seu ser. “Quero uma casa no campo como Elis Regina” introduz um dos temas mais interessantes de todo o álbum, «Casa No Campo», no qual a artista descreve o seu local de sonho e todas as coisas boas que ambiciona um dia ter. “Um filho, um livro, um disco, uma árvore, dois amigos, dois umbigos unidos num chão de mármore, quatro tempos, quatro ventos dentro de quatro paredes, debaixo de um céu de estrelas, a nossa cama de rede”, é uma das passagens da música, entre muitas, que melhor descreve a paz, o sossego e a vida pacata que Capicua valoriza. Não faltam ao tema passagens na voz de Elis Regina, enriquecendo e fortalecendo a mensagem que a artista quer transmitir. «Domingo» fala-nos sobre o dia da semana que Capicua menos aprecia, criticando toda a inércia e o sedentarismo a ele associados.

O álbum encerra com «A Última», que, em jeito de despedida, desvenda os últimos pormenores sobre a personalidade de Capicua. A artista deixa bem claras as suas convicções políticas e ideológicas e a vontade de um dia poder vir a viajar como um músico e partilhar o palco com uma banda. Capicua não poupa nas referências a grandes mcs femininas como DIAMS e Speech Debelle, quando realça a importância de o rap feminino ser valorizado, concluindo com a frase: “sou uma num milhão e tenho em ambição a missão de servir de inspiração para o futuro”.

Todo este álbum é uma viagem na mente de Ana (Capicua) e, mesmo por conter uma componente tão pessoal, leva-nos a conhecer um pouco mais do seu carácter, das suas ideias e determinações. Capicua, é assim, um dos fortes candidatos à lista dos melhores álbuns portugueses do ano.