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Capicua - Uma Maria bastante Capaz
Capicua - Capicua
Optimus Discos, 2012
Nota- 7,5/10
Já anda pelo Porto a fazer beats e rimas desde a década de 90, já colaborou com alguns dos DJs e produtores mais conceituados que Portugal tem para oferecer; este seu álbum contêm beats de Sam the Kid e Nelassassin, um poema de Almada Negreiros, e muitas referências de grandeza. Contudo, e apesar da sua experiência e das contribuições alheias a este álbum, Capicua soa a fresco. Tem qualquer coisa de novo.
Talvez isto se deva ao facto de ter uma vida diferente do que já esperamos de um MC - uma infância dificil, problemas com a família. Ana não provêm de uma casa assim. Talvez esta sua sonoridade seja o resultado do seu estudo académico; não é um zé-ninguém que consegue queixar-se do estado do seu país ao descrevê-lo como um masoquista que, de acordo com <<Terapia de Grupo>>, não se flagela há dois dias. Estudos estes que também se revelam no próprio nome que escolheu para se representar no mundo do Hip-Hop, com conotações bíblicas. Talvez esta frescura se deva até a ser uma MC mulher, facto que glorifica no single <<Maria Capaz>>, apesar de ser algo triste ainda ser legítimo ter de glorificar o simples facto de se pertencer ao sexo feminino, isto dois séculos após os primeiros passos do movimento femininista.
Ao ouvir este álbum, o que é certo é que a sua identidade fica marcada como única. Em <<Domingo>> revela "os porquês" de não gostar deste dia da semana, enquanto que em <<Hérois>> nos descreve uma situação conhecida demasiado bem por demasiados portugueses. Criou <<Medo do Medo>>, em que a sua maneira agressiva de rimar, aliada à sua poesia, chega a assustar um pouco, mas enfrenta com bom-humor o <<1º Dia>>. O seu amor pelas rimas é transparente em todo o álbum, dando-lhe um certo intimismo, já que com cada música ficamos a conhecer melhor a mulher por detrás do projecto.
Tal como ela própria afirma, não é uma mulher fácil, e o seu álbum também não. Aqui não se vai encontrar superficialidade, letras que soam bem sem terem sentido, ou algo sobre como sair à noite com os amigos é bom. Este álbum é mais do que isso, e apela apenas aos que sabem apreciar bons beats aliados a uma poesia deliciosa de se ouvir, sobre temas menos optimistas. Um grande álbum de apresentação.
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Menina, Moça e Mulher. Sempre Capaz
Capicua
Capicua
Optimus Discos (2012)
7/10
Ana Fernandes é licenciada em Sociologia e
tem um doutoramento em Geografia Humana. A par da vida académica, gravou um
disco de hip-hop. Nestas lides é conhecida como Capicua. Pode ser um nome novo
para muitos, mas para Capicua, o hip-hop não é certamente coisa nova. Foi por
volta dos 15 anos que teve o seu primeiro contacto com a cultura hip-hop, mais
propriamente com o graffiti. Do graffiti à música foram 10 anos. Dois eps
(colectivos) e uma mixtape (a solo) depois, a MC que era verde, quis mostrar-se
capaz (e completa) e começou a fazer planos para um disco maduro, uma coisa
mais à séria. Assim surge este álbum homónimo, num registo mais autobiográfico,
que pretende reduzir a distância entre a Ana e a Capicua.
A MC natural do Porto marca pela diferença. Assume à partida que teve uma
infância e adolescência felizes, contrastando com alguns rappers que falam
sobre infâncias traumáticas e como é crescer em bairros sociais. Assume-se pelo
que é, uma das poucas mulheres a fazer hip-hop em Portugal e não esconde esse
lado mais feminino e sensível, muito pelo contrário.
Capicua começa por nos dizer em «Mão Cheia», através
de um texto de Almada Negreiros, que as palavras não são novas, mas que os seus
sentidos podem ser reinventados. E é isso mesmo que vemos nas faixas seguintes:
a mestria das suas metáforas e analogias aguçadas. «1º Dia», «Hora Certa», «Judas
e Dalilas», «A Volta» e «Luas» são canções que têm um cunho mais pessoal e
relatam experiências de vida. Infância, fases da vida, amores, desamores,
amizades, inimizades, ambições, lutas, são alguns dos temas que transparecem
nestas vivências relatadas por entre versos.
Ana cresceu a ouvir cantores como Zeca Afonso e José
Mário Branco. A presença da música de intervenção na sua vida fez com que
quisesse fazê-la um pouco sua e ao seu jeito, com a sua pronúncia do norte. A
voz revolucionária de Capicua faz-se ouvir em músicas como «Os Heróis», «Terapia de
grupo» e «Medo do Medo». Esta última é a terceira faixa do disco e a sua preferida.
Fala da perda de orgulho nacional, de angústia, agonia e insegurança. Contudo tenta passar uma mensagem de força e coragem. «Nós temos direito a um futuro» é a frase que marca «Os Heróis».
«Casa do Campo» é talvez a música mais especial de
todo o disco. É a única que invoca ambições para o futuro, a um nível mais
pessoal. Inspirada em Elis Regina, Capicua despe-se de pretensões e expõe a
simplicidade do futuro que deseja. «Um filho, um livro, um disco, uma árvore, dois
amigos,
dois umbigos unidos num chão de mármore». Uma tendência
cíclica, uma vez que gerações anteriores sonhavam com uma casa na cidade. Do
campo para a cidade, da cidade para o campo.
«Maria Capaz» é o primeiro single do álbum e a afirmação de Capicua como uma MC para quem «o máximo é o mínimo».
«Maria Capaz» é o primeiro single do álbum e a afirmação de Capicua como uma MC para quem «o máximo é o mínimo».
Mas não é só a letra que faz uma canção. Para os beats do álbum, Ana contou com
colaboradores de luxo como D-One, Ruas, Sam the Kid, Xeg e Nelassassin. É um bom disco
de apresentação, um cartão de visita do hip-hop feminino, mas também de Capicua no passado, no presente e no futuro. A prova de que o hip-hop pode aparentar
ser um mundo de homens, mas que a colaboração entre ambos os géneros dá frutos.
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Crítica: Disco Capicua

Capicua/Capicua
Optimus Discos
5.5/10
2012
Tem um sotaque tão proeminente quase igualável ao de Reininho-Silvestre em «Pronúncia do Norte», ou ao de Abrunhosa nos seus discursos eloquentes. Mas aqui a estória é outra. Não é música popular, nem pop no estado puro, mas é um pop com hip e rap. De original, tem o cabelo longo, os lábios carnudos, o aspecto roliço e o cabelo apanhado uma vez ou outra. Chama-se Ana Fernandes e é rapper. A imagem de rapariga dos subúrbios (daqueles meandros inspiradores para rimas com dramas) não é imaculada. Tem pontas ou réplicas de miúda mais citadina do que (sub)urbana.
Apareceu no panorama musical de braço dado com os melhores padrinhos, como D-one, Nelassassin ou Sam The Kid. Em o «1ª Dia» aproveita para explicar porque quis fazer isto: “faço rap porque gosto, essa é a única razão”, no meio dos beats inconfundíveis de D-one. Estes instrumentais continuam em «Os Heróis» ou em «Medo do Medo» numa versão de Ana zangada. “Não vale a pena decorar a tabuada/Temos tudo o que é estudo, emprego zero”, “Eles têm medo que não tenhamos medo”. A última frase, do segundo single do seu álbum de estreia, mostra que este foi feito na ebulição de um país em crise, ao mesmo tempo que a impaciência de Ana continua em «Domingo» onde implica com “dois sábados seguidos” ou com a ”fatiota de dar a volta no shopping”. O que é preciso é uma «Terapia de Grupo» para pôr o país a mexer. “Há que falar de culpa, viver a vida adulta sem peso na consciência. É preciso uma coisa que dê furtos para sermos um país livre de paranóia, para sermos um país livre da sua história, ainda não recuperámos de uma relação difícil, quarenta e tal anos governados por um imbecil”, contesta Ana.
Mas as turras com o mundo não se limitam ao seu discurso político, adquirido enquanto crescia a ouvir José Afonso ou José Mário Branco. No meio dos seus quase tenros 30 anos, Ana ainda sofre por aquelas coisas do amor, das dúvidas e outras que tais. Diz que há «Hora Certa» de ir embora quando o gostar chega ao fim: “Foram anos que ofereci a um coração carente. Com é que eu te largo, faço o luto e mando fora, como é que eu luto contra o susto da ruptura e asseguro que não te quero no futuro”.
Mais melosa, ainda que sempre dona de uma rima pronta, feita da consciência de uma miúda endiabrada, ela parece uma igual a tantas outras. O sonho chama-se «Casa de Campo» e é uma das faixas mais criativas de todo o disco. Confessa que esta faz parte das suas exigências e que quer que esta "cheire a flores e frutos, a gomas e sugus, a doces e sumos, com lareira e fogo brando, que ilumine todo o ano, o sorriso de quem amo". "Uma casa de campo que pode ser na cidade, mas tem de ser de verdade, mesmo não tendo morada", mostra uma Ana mais infantil, romântica, que chega a referir-se ao personagem Anita dos livros de outrora, num final de cadência soft. «Sagitário», ainda nos inícios, é outro dos momentos mais surpreendentes. Agradável ao ouvido, e com o beat de Xeg (a fazer lembrar o mixtape dos Orelha Negra ou a banda do sonora do Crime do Padre Amaro), perde força nas letras, quase como a própria Ana.
Mais melosa, ainda que sempre dona de uma rima pronta, feita da consciência de uma miúda endiabrada, ela parece uma igual a tantas outras. O sonho chama-se «Casa de Campo» e é uma das faixas mais criativas de todo o disco. Confessa que esta faz parte das suas exigências e que quer que esta "cheire a flores e frutos, a gomas e sugus, a doces e sumos, com lareira e fogo brando, que ilumine todo o ano, o sorriso de quem amo". "Uma casa de campo que pode ser na cidade, mas tem de ser de verdade, mesmo não tendo morada", mostra uma Ana mais infantil, romântica, que chega a referir-se ao personagem Anita dos livros de outrora, num final de cadência soft. «Sagitário», ainda nos inícios, é outro dos momentos mais surpreendentes. Agradável ao ouvido, e com o beat de Xeg (a fazer lembrar o mixtape dos Orelha Negra ou a banda do sonora do Crime do Padre Amaro), perde força nas letras, quase como a própria Ana.
Com o dedo d'O Miúdo Samuel, o single de apresentação «Maria Capaz» serve para mostrar que ela é mesmo uma Mestre de Cerimónias, mas sem qualquer tipo de cerimónias ou manias, mas muito ego. Assume-se como "comandante da guerrilha cor-de-rosa" ou uma "abelha rainha". Numa palavra, "no R A P, sou eu que reino, rapaz". E ponto final. Só que a dúvida é mesmo esta. Será Ana (ou a Maria) capaz de reinar se os rapazes já cá não estivessem. Canta os mesmos problemas, canta-os da mesma forma, canta as mesmas soluções, Fá-lo é num tom mais feminino. Com sorte se chega a uma capicua, feita de partes iguais, e da mesma sorte esta Capicua vai precisar dela. Mais díficil do que tê-la, é mantê-la. Tornar-se intemporal vai exigir-lhe mais do que ser apenas uma Maria.
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