Mostrar mensagens com a etiqueta Hip Hop. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Hip Hop. Mostrar todas as mensagens

Lusofonia: Um encontro de identidades


Falar de lusofonia não é só falar sobre nós, povo português, mas também sobre quem fala e sente o português. A musica lusófona é a musica cantada por todos aqueles que dominam a língua portuguesa, e têm gosto em o fazer.
A musica cantada em português é e continuará a ser explorada até ao mais ínfimo pormenor, vão sendo acrescentadas ideias, novos ritmos, novas paixões. Musica em Angola, musica em Cabo Verde, toda ela expressa em português vale o que vale.
Os artistas de países africanos introduzem nos seus estilos musicais a língua portuguesa, sem nunca descurar dos ritmos próprios das suas vivências. Os seus ritmos e melodias são facilmente colocados numa panela e misturados com os cantares e dizeres do povo português, e é daí que sai uma espécie de nova melodia.
A música lusófona é, conforme já referi, e achando uma ideia importante, ainda um mundo em constante desenvolvimento, é certo, pois cada dia vão surgindo novos ritmos, novas formas de se fazer boa música, esta cantada em bom português.
Fala-se de saudade, da convivência. Canta-se e expressa-se o bom português em forma de Reggae, Hip Hop, Kuduru, Samba, e outras coisas mais. Simplificando, somos uma comunidade unida, que trabalha no mesmo sentido: o de levar a música cantada em português além-fronteiras. E parece que estamos a ter sucesso nesta jornada musical.

Crioulo, fado e saudade


Ninguém o pode negar:  A língua portuguesa está viva, recomenda-se e festeja-se a cada ano que passa. Celebrando o encontro entre sabores, cheiros e ritmos de quatro continentes.
Foi há mais de cinco séculos que os marinheiros cruzaram os oceanos, como uma melodia cruza uma pauta, e domaram um globo inteiro só para descobrir um novo mundo. Hoje as ondas, sonoras, partilham ritmos de África, Brasil, com este nosso cantinho ocidental.

De um rectângulo recortado, pequeno e encaixado numa península a sul da Europa, Portugal conseguiu tornar-se num império, que ainda hoje sobrevive. Já não são reis, nobres e senhores que o demandam, nem muito menos punhos firmes da ditadura e dos arsenais, mas sim uma palavra: A lusofonia.

A saudade é ponto de partida, seguida pelo pranto do fadista, do choro da guitarra e do ritmo do adufe, ser lusófono é ser preto, branco, mulato; tocar guitarra portuguesa e dançar kuduro. Pode até parecer estranho e, para os mais nacionalistas, castigar a identidade de um povo mas a verdade é que os musicólogos, historiadores e críticos da área assumem que não existe uma música puramente portuguesa.

Assim como os negros do Blues e do Folk nos Estados Unidos  influenciaram a música daquele pais usando o choro e as lamurias dos seus avós escravos, o fado também é um produto da experiência musical dos hoje chamados PALOP, assim  como de todas as trocas mercantis feitas entre países de todo o mundo. É evidente que Amália Rodrigues veio a influenciar o fado e a torná-lo no que hoje ouvimos, pois tornou-o poético e urbano, mas até ela  sofreu influências dos “ares” franceses durante o seu processo de criação.

Nesta mescla cultural o fado não está só, visto que até o próprio folclore nacional está crivado de “estilhaços” musicais dos nossos semelhantes lusófonos. Já Zeca Afonso o dizia por vezes quando tocava temas como Galinhas do Mato, que gozavam da experiência interventiva do autor português aliada a ritmos populares do interior do país e de Africa. Seguem-se nomes como Sara Tavares, Mariza ou Ana Moura que neste momento unem o melhor do mundo lusófono as experiências da pop e do fado.

Mas para que ouvíssemos estes nomes, muito teve de ser feito, visto que apesar do povo português estar aberto à imigração e às trocas culturais, residiram durante anos, nas mentalidades, um certo cepticismo em relação à música africana e brasileira. Durante os anos 60 a 80, a música lusófona sobreviveu muito à base dos canta-autores brasileiros Caetano Veloso ou Chico Buarque que assumiram uma grande importância na inserção de um novo folego musical no nosso país, acompanhado de sotaques cariocas e crioulos.

Os anos 80 deram a Portugal o boom discográfico que o país de camões já precisara há muito. Para além de projectos com olhares mais anglo-saxónicos, como os Táxi, os Heróis do Mar ou os GNR, surgiram nomes que viriam a unir a reconstruir a lusofonia das canções. António Variações ou a Banda do Casaco recuperavam, na época, as “malhas” beirãs, transmontanas e minhotas, muitas delas idênticas às de Bonga, Waldemar Bastos ou até mesmo Danny Silva. A verdade é que este novo olhar despertou a vontade de ouvir “novos” ritmos que abriram a porta a Daniela Mercury, Lura, Tito Paris, entre muitos outros. Por cá o hip hop começou a penetrar a pouco e pouco. Exemplo disso é a compilação “Rapública”, de onde surgiram nomes como “Black Company” que influenciaram o trabalho de dezenas de mc’s nacionais, entre eles Sam The Kid, Melo D, Valete ou Nigga Poison.

Mas este capítulo das influências dar-nos-ia pano para mangas, visto que o hip hop é como uma máquina do tempo que vai recuperando os velhos êxitos adormecidos. Cool Hipnoise deram nova vida à Bossa Nova, mais recentemente os Buraka Som Sistema deram electricidade ao revoltado e reivindicativo kuduro Angolano e até o Reggae foi visitado pelos portugueses através dos “históricos” Kussondulola, dos Terrakota ou dos Mercado Negro.

A música tem este poder de falar por si mesma, de se poder tornar um código linguarejo que remistura lembranças, pessoas, sentimentos, povos e de novo a saudade. A mesma de Cesária Évora, cabo-verdiana, a mesma dos Macacos do Chinês, Amadorenses, a mesma de dez milhões de portugueses que ao unirem a força das línguas, musical e verbal, com os seus “irmãos” lusófonos, dariam ao mundo muito mais do que apenas um buraco orçamental.  


Beastie Boys acusados de plágio

Os senhores do Hip-Hop de Nova Iorque estão a braços com uma queixa apresentada em tribunal, a qual acusa a banda de uso ilegal de samples nos seus dois primeiros álbuns.
A editora norte-americana TufAmerica alega que a banda "samplou" as músicas «Say What» e «Drop the Bomb», originais dos Trouble Funk, sem qualquer permissão ou alusão aos créditos devidos.
Foto retirada de: Artesonora.pt

Os responsáveis da TufAmerica apresentaram provas com base "numa análise meticulosa do áudio em causa", dizendo ainda que os samples "foram habilmente disfarçados para o ouvinte comum".
ao que parece, os advogados dos Beastie Boys pediram ao tribunal que desconsiderassem o caso, por falta de solidez de provas. Questionaram anda o porquê de terem levado vinte anos a avançar com o processo.
aguarda-se novidades.



Menina, Moça e Mulher. Sempre Capaz


Capicua
Capicua
Optimus Discos (2012)
7/10


Ana Fernandes é licenciada em Sociologia e tem um doutoramento em Geografia Humana. A par da vida académica, gravou um disco de hip-hop. Nestas lides é conhecida como Capicua. Pode ser um nome novo para muitos, mas para Capicua, o hip-hop não é certamente coisa nova. Foi por volta dos 15 anos que teve o seu primeiro contacto com a cultura hip-hop, mais propriamente com o graffiti. Do graffiti à música foram 10 anos. Dois eps (colectivos) e uma mixtape (a solo) depois, a MC que era verde, quis mostrar-se capaz (e completa) e começou a fazer planos para um disco maduro, uma coisa mais à séria. Assim surge este álbum homónimo, num registo mais autobiográfico, que pretende reduzir a distância entre a Ana e a Capicua.
A MC natural do Porto marca pela diferença. Assume à partida que teve uma infância e adolescência felizes, contrastando com alguns rappers que falam sobre infâncias traumáticas e como é crescer em bairros sociais. Assume-se pelo que é, uma das poucas mulheres a fazer hip-hop em Portugal e não esconde esse lado mais feminino e sensível, muito pelo contrário.

Capicua começa por nos dizer em «Mão Cheia», através de um texto de Almada Negreiros, que as palavras não são novas, mas que os seus sentidos podem ser reinventados. E é isso mesmo que vemos nas faixas seguintes: a mestria das suas metáforas e analogias aguçadas. «1º Dia», «Hora Certa», «Judas e Dalilas», «A Volta» e «Luas» são canções que têm um cunho mais pessoal e relatam experiências de vida. Infância, fases da vida, amores, desamores, amizades, inimizades, ambições, lutas, são alguns dos temas que transparecem nestas vivências relatadas por entre versos.
Ana cresceu a ouvir cantores como Zeca Afonso e José Mário Branco. A presença da música de intervenção na sua vida fez com que quisesse fazê-la um pouco sua e ao seu jeito, com a sua pronúncia do norte. A voz revolucionária de Capicua faz-se ouvir em músicas como «Os Heróis», «Terapia de grupo» e «Medo do Medo». Esta última é a terceira faixa do disco e a sua preferida. Fala da perda de orgulho nacional, de angústia, agonia e insegurança. Contudo tenta passar uma mensagem de força e coragem. «Nós temos direito a um futuro» é a frase que marca «Os Heróis».
«Casa do Campo» é talvez a música mais especial de todo o disco. É a única que invoca ambições para o futuro, a um nível mais pessoal. Inspirada em Elis Regina, Capicua despe-se de pretensões e expõe a simplicidade do futuro que deseja. «Um filho, um livro, um disco, uma árvore, dois amigos,
dois umbigos unidos num chão de mármore». Uma tendência cíclica, uma vez que gerações anteriores sonhavam com uma casa na cidade. Do campo para a cidade, da cidade para o campo.
«Maria Capaz» é o primeiro single do álbum e a afirmação de Capicua como uma MC para quem «o máximo é o mínimo».

Mas não é só a letra que faz uma canção. Para os beats do álbum, Ana contou com colaboradores de luxo como D-One, Ruas, Sam the Kid, Xeg e Nelassassin. É um bom disco de apresentação, um cartão de visita do hip-hop feminino, mas também de Capicua no passado, no presente e no futuro. A prova de que o hip-hop pode aparentar ser um mundo de homens, mas que a colaboração entre ambos os géneros dá frutos.

Link para download gratuito: Aqui

Critica: Capicua | Capicua (álbum de estreia)



Capicua
CAPICUA

Optimus Discos 2012
Nota: 7.5 / 10








Este é um daqueles exemplos que pode muito bem mudar a forma como se vê e se ouve o Hip Hop em Portugal. Capicua é uma rapper digna do nome mas surge de um mundo muito diferente daquele que nos habituámos a ver. As letras demonstram o passado sorridente da artista, que teve uma vida muito mais fácil do que a de muitos outros músicos da sua “praia”. O passado, aqui descrito, é constantemente aliado à intenção, muito vincada, em demonstrar o que o seu som pode trazer à cena Hip Hop portuguesa. Esta «Maria Capaz» retrata ao mesmo tempo uma “maria rapaz”, que certamente, há 20 anos atrás, fora nas ruas do Porto. A exaltação do seu bom trabalho e o desafio que lança a outros MC’s é outra marca fundamental do single deste álbum-estreia.

De facto este é um disco que apresenta muito bem a vida numa cidade. A mesma “estória” em qualquer semana do mês, tão rotineira e cíclica como uma “Capicua”, que pode ser lida em várias direcções, mas sempre da mesma forma como no «1º dia». Para confirmar a tendência, os temas: «Hora Certa», onde o arranjo com trompetes “aquece” um cenário sentimental, num fim de tarde; o sonho de uma «Casa do Campo», como a de Elis Regina, com o perfume a “Pão quente, terra molhada e manjerico”; e «Domingo», um dia que parece não servir de muito e que surge em forma de um tema com que muitos se vão identificar.

Em defesa do Hip Hop e do seu trabalho surge «A última», onde a rapper aponta que «já devia haver um sindicato para MC» e que basta de preconceito sexual na área. «Chamem rap ao rap de raparigas». Exalta Ana, naquele que é o último tema do álbum. Mas deixo outras ressalvas que justificam a nota artística deste álbum, entre elas, «Sagitário» e «Judas e Dalilas» onde Ana demonstra muito bem a sua veia poética mais surrealista, aliando aspectos muito atuais com temáticas mitológicas e bíblicas, talvez apoiada nos estudos académicos, que ostenta, aliados às vivências urbanas que o álbum apresenta.

Relevante ainda a consciência política das faixas «Os Heróis», que acalenta esperança para todos os jovens e licenciados em geral que vivem o flagelo do desemprego; e «Terapia de Grupo», onde Portugal surge como um “masoquista anónimo” pronto para uma reabilitação que parece nunca mais chegar.

Crítico, moderno, mas muito inspirado em sonoridades dos anos 90 que me fizeram recordar, entre outros, os seus conterrâneos «Mind Da Gap». Notam-se ainda toques de Funk e World Music, muito swing, groove nas guitarras-baixo, sopros, e apontamentos muito interessantes de percussão. Uma receita que acrescentou ao álbum variações algo incomuns no Hip Hop, associadas ao trabalho da rapper portuense com Sam The Kid,  Darksunn, Nelassassin e D-one “fabricantes” de Beats bem estruturados e com “corpo”, posteriormente bem misturados por Ghuna X.