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Rubrica: Este é o primeiro riff do resto da tua vida #5

Chapéus há muitos!

A história de hoje começa com um copo de moscatel e um típico almoço de família no qual os meus pais recebiam, em nossa casa, a visita dos meus tios do Alentejo. Nessa época eu devia ter uns dois ou três anos e a minha mãe já denotava em mim uma incontrolável curiosidade. Característica que dura, de forma muito mais “equilibrada”, até hoje.

Tínhamos acabado de almoçar e o meu pai deliciava-se com um belo moscatel de Setúbal, distrito do qual sou oriundo, à medida que ia convivendo com as visitas. Tudo parecia correr na normalidade até que o telefone tocou e ele, pousando o copo na mesa de centro, foi atender. Não sei quanto tempo demorou o telefonema, mas com toda a certeza o suficiente para eu beber uns goles, do dourado néctar peninsular, sem que ninguém desse por isso.

Hoje, se o mesmo acontecesse, significariam só uns goles num largo e pesado copo de vidro, mas naquele tempo significaram, não só uma enorme dor de cabeça para todos quantos estavam em minha casa, como também uma das maiores sestas que já tive oportunidade de usufruir em toda a minha vida.
 “Curiosamente” estávamos entre 1993 e 94, altura em que os Nirvana Lançaram In Utero: o último álbum de originais da banda de Seattle antes da trágica morte de Kurt Cobain. O que definitivamente não me marcou especialmente, visto que aos dois anos e meio eu tinha outro tipo de preocupações, tais como brincar, gatinhar ou dormir após beber “vinho generoso”. Acho que mesmo acidentalmente alcoolizado um bébé nunca gritaria “Rape me, my friend”, como “manda” a quarta faixa do disco da banda de Grunge.

"Rape Me" um dos maiores sucessos de In Utero, o terceiro e último disco dos Nirvana.

Mas este “vício” de querer descobrir o porquê das coisas e de querer viver aventuras não viu um fim, antes pelo contrário, aumentou cada vez mais. Por volta dos cinco - seis anos comecei a “apaixonar-me” por histórias de detectives, muito por conta do carismático engenhoso “Inspector Gadget”, ou até mesmo do pouco conhecido “The Great Mouse Detective”, em português “dublado”: «Basílio: O grande Mestre dos detectives» (aconselho a leitura deste texto). Paixoneta que se foi prolongando, por influência do meu saudoso avô materno, com o visionamento dos filmes das sagas “007” e “Indiana Jones”, que me aguçavam cada vez mais a vontade de querer ser um detective quando fosse “grande”.

Os anos passaram e a realidade começou a soar muito mais “negra” do que aquilo que eu esperava. Por volta dos nove – dez anos tinha já substituído o meu “projecto de vida” e passei a querer ser jornalista, visto que aqueles detetives derramavam demasiado sangue e os jornalistas, também eles curiosos e algo “aventureiros”, apenas, e de forma metafórica, derramavam tinta. Afinal porquê querer ser um herói morto quando poderia ser um “herói” vivo nas leituras diárias de um povo?

A infância passou a correr, mas a vontade de querer marcar a diferença estava agora mais do que nunca a nascer. A adolescência trouxe-me coisas muito boas. Recordo com saudade a audição entusiasta de Make Yourself (1999) , Morning view(2002),  A Crow Left Of The Murder(2004), três dos sete álbuns dos Incubus, uma banda norte-americana que marcou a minha, ainda curta, história como amante de música. A intenção, a mensagem das letras, o som das guitarras de MikeEinziger, o toque “Freestyler” do “Scretcher”  Dj Chris Kilmore, a voz elástica de Brandon Boyd. Tudo corroborava para tornar esta a minha banda favorita, se é que eu tinha alguma.

"Megalomaniac", um dos temas que mais me marcou desde a primeira audição da banda de Brandon Boyd.

Mas para além das muitas horas que passei a ouvir a música destes californianos, acabei também por começar, como qualquer adoloscente, a querer copiá-los visualmente, ou pelo menos, na época, a querer “tirar ideias”. Foi então que a “googlar” encontrei uma foto em que Brandon Boyd aparecia com um chapéu muito particular e que me chamou a atenção, não só pelo formato, como também pela lembrança que me trouxe dos meus tempos de “detective aventureiro”. É certo que já conhecia aquele tipo de chapéus, visto que a minha bisavó guardava, religiosamente, alguns acessórios do mesmo género, que teriam sido usados pelo seu falecido marido. Procurava agora tentar dar um nome a este tipo de chapéu.


Brandon Boyd. Um "pedaço" da foto que me fez começar a ver os velhos Fedora de uma outra forma.
        
Acho que só me preocupei realmente em saber mais sobre este chapéu, quando já estava rendido ao uso do mesmo, visto que só ao fim da terceira compra é que me deparei  com a “minha realidade”. Ao fim ao cabo era, diariamente, inquirido em relação à sua origem, nome e uso, principalmente por todos aqueles que insistiam em chamar-me “Jason Mraz”, “TT” ou “Justin Timberlake”. Três artistas da “cena” Pop, Soul e R&B que também usam chapéus idênticos.

Foi então que descobri que estes acessórios masculinos dão pelo nome de “Fedora” e que no final de contas o seu nome e o seu fabrico até têm mais a ver com música do que aquilo que eu, inicialmente, esperava. Para muitos os também aplidados chapéus “Borsalino”, nasceram no inicio da década de 20 e há quem diga que tenham sido feitos, pela primeira vez, na fábrica “Borsalino”, na Itália. Estima-se que o nome “Fedora” seja anterior a este fabrico e que esteja ligado ao nome de uma dramática peça de teatro russa escrita em 1882. O peça veio a ser trazida para o sul da Europa através, de uma adaptação para a Ópera, do italiano Umberto Giordano.

Este tipo de acessório foi tão usado por actores de teatro, europeus durante as duas primeiras décadas do século, que a partir dos anos 40 se generalizou o sua utilização em Hollywood. Exemplos do uso deste chapéu foram: Frank Sinattra, Anthony Quinn, Fred Astaire, ou a mítica imagem de Gene Kelly em “Singing in the Rain” (1952) (Seranta à chuva). Já para não falar de figuras de proa na História, como Benito Mussolini, Al Capone ou o Papa João XXIII, que vieram a marcar o uso deste tipo de chapéus até meados do século XX.

Gene Kelly em “Singing in the Rain” (1952)

No mundo da música o maior "embaixador" do Fedora foi Michael Jackson, um dos maiores artistas POP de todos os tempos, para muitos o melhor de sempre. Michael uso-o como ninguém, dando-lhe vida entre os esquemas de dança que o identificam até hoje. No fundo uma figura "imortal" que mereceu destaque no porte deste símbolo da masculinidade no século XX. 


Recordemos Michael com os seus Fedora:

Billie Jean ( ao vivo 1983)


Smooth Criminal (1988)


Rubrica: Este é o primeiro riff do resto da tua vida #4

Portugal  português

Em nove séculos de história Portugal nunca tinha vivido um momento tão dramático quanto o actual. Não, não vos falo da crise económica nem das mais recentes medidas de austeridade, falo-vos sim do “falecimento patriótico” que leva a maioria dos portugueses a renegar o próprio país sem que tenham de se levantar dos seus velhos sofás.


As bandeiras gastronómicas do nosso país, como o Vinho do Porto ou a indústria conserveira, são agora exploradas por outros países, o sol, que nos brinda o ano inteiro, é visto pelos parceiros europeus como uma forma de “ganhar bronze”. Até a cultura parece estar a morrer, visto que as tradições são vistas “como coisas do passado” e a arte não passa de uma coisa “gira”.


Posso não ter nascido nos anos 60, mas decerto que registei ao longo dos anos relatos de quem por essa altura nasceu e recorda com saudade os tempos do “Festival Eurovisão da Canção”, um fenómeno dos anos 70 e 80. O festival veio a decair a partir de 96 depois dos êxitos de Sara Tavares, com “Chamar a Música” e de Lúcia Moniz, com “O meu coração não tem cor”, não terem tido seguidores à altura.


Reveja a atuação de Sara Tavares em 1994


No próximo ano, e segundo a RTP, Portugal não vai participar no festival por “razões económicas”, situação que já se adivinhava há algum tempo e que nos deixa a sensação de que a participação deste ano pode mesmo ter sido a última. Para muitos este é até um “mal necessário”, visto que este evento era visto por muitos como um “desperdício de dinheiro”, mas não deixo de registar a minha consideração para com esta manifestação musical e cultural europeia que levou para lá das fronteiras vozes históricas, da música ligeira nacional, como as de Simone, Fernando Tordo, Carlos do Carmo ou Dulce Pontes.

Mas este exemplo não morre só e Portugal é visto pela maioria como “um país velho e de velhos”, visão que não está completamente errada, é verdade, mas que não ajuda em nada os milhões de jovens, que procuram um rumo, a identificarem-se com o seu país.


No seguimento da luta contra este “falecimento patriótico” têm-se formado grupos, associações e promotoras que têm tentado integrar manifestações culturais e artísticas em meios rurais. Só na última década o nosso país viu nascer perto de 20 novos festivais de verão. Somam-se de ano para ano e preenchem os três meses da época balnear desde o Minho até às ilhas da Madeira e dos Açores. A maioria aposta em novos universos musicais fora da comum cultura Pop/Rock e nos quais a WorldMusic faz-se ouvir e viver por recintos relvados e parques de campismo.


De facto reparo que o nosso pequeno país é cada vez mais “festivaleiro” e arrisco-me a dizer que a “onda” dos festivais promovidos em zonas rurais confere uma experiência muito mais enriquecedora do que qualquer outro festival de grandes dimensões.


Exemplo desta realidade é o festival Bons Sons, que desde 2006 “invade” gentilmente a aldeia de Cem Soldos, em Tomar, e demonstra o que de mais puro o nosso país tem para oferecer. Visitei pela primeira vez o certame este ano e pude constatar que a “SCOCS”, a associação cultural que criou o festival, tem feito um enorme trabalho. Nunca tinha visto algo idêntico, uma aldeia repleta de música, exposições, mostras gastronómicas, convívio, centenas de jovens e muito espirito de entreajuda e camaradagem. O que me permitiu passar cinco dias quase perfeitos, não fosse a grande distância do parque de campismo até ao recinto.


Para todos os gostos, o cartaz, puramente nacional, combinou o rock mais experimental dos Linda Martini e dos PAUS com o rock “dançavel” dos Capitão Fausto. Deu ainda a oportunidade aos visitantes de pode assistir a Jazz com os incríveis Maria João & Mário Laginha e aos grandes êxitos da música popular portuguesa com o “mítico” Vitorino. Impressionantes, ainda, os projectos de fusão com os A Naifa, os Pé na Terra, os ATMA e os Xícara, ao lado dos enternecedores: Mário Zambujo, Márcia, Aldina Duarte, Filho da Mãe e Nuno Prata.


Um "mix" de imagens captadas na edição deste ano do festival Bons Sons


O slogan «Vem viver a aldeia», tantas vezes repetido na página do facebook do festival, faz todo o sentido, pois quem visita o Bons Sons não vai só poder ver e ouvir música, mas também poder partilhá-la com toda a aldeia, que respira vida e convida a entrar mais alguém para beber um copo, respirar ar puro e, de facto, viver o verdadeiro espírito de uma aldeia. Para quem visitar o festival em 2014 aconselho a sopa da pedra seguida de uma “talhada” de melão, que tantas vezes me socorreu as necessidades nutritivas que passei, não fosse a minha alimentação mantida à base do típico “menu de campista”.

Entretanto, já lá vão três meses desde que vi Cem Soldos pela última vez.A aldeia deve agora sentir-se mais só sem as centenas de “festivaleiros” e curiosos que iam aparecendo por lá em Agosto. Deve agora reflectir as diferenças climatéricas do “calor acompanhado” e do “frio solitário”. Em 2014 mata-se a saudade - tão portuguesa – de um festival que só se realiza de dois em dois anos. Quanto ao festival da canção o mais certo é ouvirmos um até sempre da tradicional voz de Eulálio Clímaco.


Confira aqui o cartaz completo da última edição do Bons Sons:



Rubrica: Este é o primeiro riff do resto da tua vida #3

"Dizedores" de palavras 


Desde que me lembro de mim que assumo uma ligação muito intima com a escrita. Sempre me senti bem entre linhas, canetas e lápis. Curiosamente era com os lápis que, no ensino primário, tinha maior ligação, mais do que não fosse por passar o tempo a “mordiscá-los”, o que irritava a professora, enlouquecia os meus pais e trazia-me um arrependimento louco. Enganem-se os que pensam que me arrependia por ouvir um ou outro sermão, pois esse sentimento de culpa surgia quando via a ponta vermelha dos tão famosos lápis “HB nº2” completamente “desfigurada”. Lembro-me de pensar que tinha exagerado nas “dentadas” e que odiava ver o meu material escolar assimilar-se a um, e desculpem-me a expressão, “barrote” de madeira, típico no uso da construção civil, mas a tentação era superior à razão e mais não se podia exigir de uma criança, não acham?

De pressa as pequenas composições, avaliadas entre maravilhosos “muito bom” ou apenas agradáveis “bom”, transformaram-se em pequenos relatos pessoais, poesia e até pequenos apontamentos aos quais ainda hoje não sei que nome atribuir.

Nos míticos tempos do Secundário, onde tudo parece fruto de uma revolução interior e de uma exaltação exterior, comecei a interessar-me por algo a que alguém chamou de “Spoken Word”, ato de interpretar e dar corpo a trechos poéticos, Odes e versos mais ensaísticos de forma muito expressiva e, quase sempre, acompanhados por trilhas sonoras responsáveis por criar cenários e ambientes sem o acrescento de qualquer imagem. Na época penso que o interesse nasceu das audições periódicas de As portas que Abril Abriu de José Carlos Ary dos Santos que, mesmo não sendo um exemplo óbvio deste movimento, demonstrava-me, com uma força abismal, as palavras de um homem com uma forma intemporal de ver o mundo.

Ary não estava só, pois a “flor da idade” trouxe-me Vítor Espadinha, que de uma forma muito própria encarou uma curta carreira musical, tendo ficado na minha memória pela participação no tema “Ouvi Dizer” de Ornatos Violeta, não só pela voz terna e escorreita mas também pelo texto que proferiu na gravação em estúdio. Adolfo Luxuria Canibal (Mão Morta), “protagonizou” um dos fenómenos mais controversos da minha história como “amante” de música. Primeiro odiei, depois estranhei e com alguma insistência, e se quiserem amadurecimento dos meus ouvidos, passei a consumir massivamente e a compreender a narrativa suja, agressiva e flamejante que suscitou em mim um certo amor pelo “ódio das coisas”.


Videoclip do tema "Novelos da Paixão"


Estávamos em 2009, ano de mutação, ano em que vivi um dos meus melhores verões enquanto “teenager” , mas em que ao mesmo tempo comecei a inteirar-me das dificuldades que o meu percurso de vida poderia vir a trazer-me. Dúvidas, projecções, incertezas, por esta altura preenchi resmas de papel de impressão com escritos, rascunhos e poesia decadentista e ao mesmo tempo comecei a recitá-la para um singelo gravador e a tentar pesquisar sobre a arte de bem dizer poesia.

Passava agora de autores intervencionistas, poetas “de há dois séculos”, e o meu “mestre” Cesário Verde, para pesquisas mais exaustivas a cerca de “Spoken Word”. Descobri Lydia Lunch, uma “anti-diva” dos anos 70/80 do movimento No wave que se dividia entre lírica sexual, “nua e crua”, submissão e opressão.
Nesta década viria ainda a destacar-se Patti Smith, herdeira dos míticos “Beatnik”, escritores anti - materialistas e de conotação democrata dos Estados Unidos da América, nas décadas de 50 e 60 e dos quais se destacou Allen Ginsberg. Patti foi uma dos responsáveis pelo movimento Protopunk, que colocou os clubes “underground” nova-iorquinos “no mapa”, assim como o histórico “Hotel Chealsea”, no qual habitaram músicos paradigmáticos como Janis Joplin, Bob Dylan, Iggy Pop e Leonard Cohen.


"Hey Joe" de Patti Smith  ao vivo (1976)

Um ano depois vim a descobrir dois novos projectos nacionais cujo aparecimento se deveu ao fim dos Da Weasel, banda de Rap – Rock nacional. Um dos vocalistas, Carlos Nobre (Pacman), veio a formar os “Dias de Raiva” e “Algodão”, dois projectos com visões algo diferentes, mas ambos com a genialidade do músico de Almada, que veio a destacar a sua faceta “Spoken” através de letras fortes, criticas e mordazes, capazes de calar qualquer voz mais púdica.

Do manifesto revoltado dos “Dias de Raiva” iniciei uma procura de novas bandas da “cena” Spoken Word e encontrei, com a ajuda de um amigo, um vídeo de uns norte-americanos que dão pelo nome de Listener* e são naturais do Arkansas. Apresentam um rock muito mais experimental, resultante do Génio de Dan Smith e Christin Nelson que de forma quase “louca” levam as suas atuações ao vivo a constar em canais de curiosidades no Youtube.

No último mês, quando menos esperava, “encontrei” uma nova banda nacional que, entretanto, tive oportunidade de assistir ao vivo e que me relançou a vontade de ouvir “coisas novas”. Osso vaidoso é um conceito muito português composto pela energia e suor de Alexandre Soares, guitarrista fundador dos GNR, e Ana Deus, cantora portuense que integrou a banda, da década de 90, Três Tristes Tigres. Responsáveis por dar vida a poemas “adormecidos” de grandes poemas portugueses, fazem-no de uma forma única, expressiva e muito teatral que dá “vaidade ao osso” representado pela sonoridade crua de uma só guitarra capaz de “blindar” as palavras a cada acorde.

Amanhã espero ouvir falar de mais alguém, alguém que não tema dizer o que algum dia escreveu ou leu num qualquer dia, seja ele bom, excelente ou menos bom, de preferência descrito da forma mais nua, fria e sem medo de ferir as susceptibilidades que o medo e a mentira gostam de instaurar.



*Veja aqui o video de "You Have Never Lived Because You Have Never Die", num concerto "intimista" dos norte-americanos Listener:




Rubrica: Este é o primeiro riff do resto da tua vida #2

Adeus Leopoldina, olá festivais!


Na última semana ocorreram situações que me deixaram a pensar, mas nenhuma delas parecia ter sumo suficiente para dar inicio a mais uma crónica, até que uma sucessão de acontecimentos me fez construir analogias que quis trazer para a minha rubrica "domingueira".

Obama foi reeleito, o que por si só, na minha opinião, já é uma boa notícia, mas o que ninguém sabe é que enquanto a minha rua “adormecia” a ver a vitória de Obama a ser lentamente consumada  o café mais próximo da minha casa, estava, em simultâneo, a ser assaltado. Muito bem, o café foi assaltado, os donos tiveram um enorme prejuízo e eu tive de beber café 500 metros mais longe de casa, mas então e a crónica?

Graças ao assalto consegui finalmente encontrar um fio condutor para a minha crónica visto que no estabelecimento, no qual não costumo beber café, vi o anúncio de natal de uma cadeia de supermercados, no qual a mascote, chamada “Pópóta”, apresentava uma versão muito estranha do tema «Party Rock Anthem» dos LMFO. Para aumentar ainda mais o grau de “estranheza” reparei que, para além da versão da música, a mascote apresentava trajes menores num anúncio concebido para crianças, o que me fez reflectir.

É triste, meus senhores e senhoras, nascidos nas décadas de 80 e 90, mas a Leopoldina, aquela ave grande, sorridente, idêntica ao “Poupas” da Rua Sésamo, e cuja música nunca vamos esquecer, foi substituída por um animal que pesa toneladas, come até 68 quilos de erva por dia e que tem uma mordedela superior à de um leão! Mas não foi só o animal que mudou, o mundo também e hoje vemos crianças muito mais interessadas em “coisas de adultos”, tendência que as campanhas comerciais parecem estar a aproveitar da melhor forma. Numa época onde o natal parece estar em risco por força das últimas medidas de austeridade, reparei que até os adultos são “seduzidos” para os anúncios que antigamente eram apenas para crianças. As grandes superfícies comerciais não estão sós, visto que este ano reparei numa mudança que não deixei de relacionar com estas verdadeiras “manobras de marketing”.

Desde que me lembro do festival «Optimus Alive», que este me conseguiu cativar quase sempre através dos cartazes que foi apresentando ao longo dos anos. Lembro-me de que em 2009, após duas edições, estava “em pulgas” para saber quem ia pisar os três palcos do festival, e em Janeiro, apenas existiam especulações em torno da visita dos norte-americanos Metallica, que acabaram depois por ser confirmados para o dia 9 de Julho no Passeio Marítimo de Algés. Hoje reparo que entre Outubro e Novembro, de 2012,  já foram confirmados três nomes para atuar no mesmo festival no próximo ano. É apenas obra do acaso? Não me parece, mesmo porque não se confirmam, com 8 meses de antecedência, nomes como Depeche Mode, Kings of Leon, e Two Door Cinema Club por obra de um acaso.



O Optimus Alive é um dos festivais mais "invadidos" em Portugal desde 2007.


Na minha opinião a forma como a promotora do evento, Everything is new, lançou estes autênticos cabeça de cartaz pode muito bem configurar uma sugestão de “oferta natalícia” sob forma de passe dos três dias de festival. As três bandas abrangem vários tipos de público, e são, ao mesmo tempo, transversais a qualquer faixa etária. Kings of Leon: tornaram-se uma das bandas mais ouvidas pelos portugueses nos últimos, muito por força do êxito de «Use Somebody», single do quarto álbum da banda. Já os Depeche Mode, autores de «Enjoy the Silence», são já um fenómeno de longa data em terras lusas. Com um público menos abrangente surgem os Two Door Cinema Club, banda que, para muitos, deu um dos melhores concertos do festival Sudoeste TMN no passado mês de agosto.

Arrisco-me a dizer que muitos “festivaleiros” vão avançar para a compra do passe já no natal, e com isto passar o próximo mês a ”contar trocos”, visto que numa época como esta em que as prendas vão escassear, todos os cêntimos serão determinantes. Vou até mais longe e aposto que, este ano, os visitantes abaixo dos 16 anos vão crescer em número, não fosse essa uma realidade cada vez mais verificada nos festivais de verão portugueses. Nestes casos podemos até imaginar o duro golpe que será entregar à “senhora da bilheteira” o dinheiro amealhado durante todo o ano, ou até mesmo a revolta em aniquilar o tão estimado “porquinho rosa”, que normalmente até é complicado de partir.

Quem sabe, com o avançar dos tempos e das vontades possa ser possível que, daqui a alguns anos, em vez de observarmos uma criança acordar às 7 da manhã, a um Domingo, para ver anúncios da Playmobil ou da Rita Gatinha/ Caminha, vamos sim encontrar a mesma criança, a acordar à mesma hora, para ver anúncios dos principais festivais de verão nacionais. Talvez a reação as estes "novos anúncios" pudesse ser idêntica à do passado com a típica frase, neste caso, ligeiramente alterada: "Pai, mãe, quero o bilhete para este festival!Vá lá!". Esta ideia pode parecer menos anedótica se virmos que "miúdos" de 12 e 13 anos já frequentam festivais como o Rock in Rio e o Alive sem acompanhamento dos pais. É só subtrair três ou quatro anos e encontramos a idade dos anúncios matutinos.Dá que pensar não dá?


Rubrica:Este é o primeiro riff do resto da tua vida #1


 Lenços, papel e crise

Alguém me disse que estamos em 2012. Ano de revoluções étnicas, convulsões sociais e de crise. Que palavrão este! Crise, algo que transcende os limites da física, algo que significa, entre outras coisas, falta de dinheiro, falta de valores morais, falta de senso, negativismo, depressão, desigualdade social, quase desistência dos valores patrióticos. Enfim, a fonte de todos os males! De facto, a palavra tem mesmo o efeito de devastação intelectual que parece ter, não nos podemos iludir, mas será que a falta de tanta coisa pode mesmo mudar a sociedade ocidental, tal como a conhecemos?


Muito bem, é nesta altura que o leitor se pergunta: “O que faz um texto destes num blog que fala de música? Que tipo idiota!” Acreditem que este pode muito bem ser um parágrafo introdutório, e que a vossa pergunta tem, ainda assim, fundamento, mas que a vossa exclamação, revela que foram fortemente atingidos pela crise, visto que a maioria dos sites que visito têm comentários deste género, em reacção a artigos que na verdade até são bons. A crise é como um mutante, é transversal até às opiniões, e esta nova tendência de lançar “criticazinhas” a tudo e todos, só porque sim, revela que a crise de opiniões está mesmo por toda a parte.

Aprendi que a música não está fechada num dossier, nem devidamente catalogada por “micas e separadores”, faz parte do mundo, das culturas, dos credos, da sociedade. Por isso é que as letras falam de coisas reais e não de furadores, argolas e arquivos. E é nesta perspectiva que a crise da indústria musical pode ser vista como a crise do capitalismo ocidental: é cíclica, é precedida de um momento de fragilidade social, e encerra momentos de grande estabilidade e “pompa”. Associo estes dois mundos, “aparentemente distantes”, curiosamente, por ter adoecido. Não que a gripe tenha um poder alucinogénio, ou algo do género, mas “proibiu-me” de sair para ouvir música ao vivo, “obrigando-me” a ficar fechado. Na impossibilidade de fazer o que gosto remeti-me a “googlar”, em busca de novidades do mundo da música, até que encontrei um artigo que me deixou num estado de introspeção.


A crise económica, dos mercados internacionais, está a influenciar a industria musical.


 “Mais música de dança, menos rock: festivais ingleses atacam a crise em 2013”. Foi este o título que me prendeu a atenção e que me mostrou as reais intenções dos festivais, mundialmente conhecidos, Reeding e Leeds. Ambos apresentaram a ideia de aumentar o número de palcos na edição de 2013, nos quais vão apostar, maioritariamente, em DJ’s. É verdade que a intenção será aumentar o leque de ofertas para os “festivaleiros” e com isso conseguir maior número de receitas, mas preocupa-me que esta tendência venha a generalizar-se para longe de terras de “sua-majestade”, visto que festivais com esta dimensão influenciam as escolhas dos produtores e organizações do resto da europa. Não que seja contra os “disc-jockey” e a música de dança, mas sinto que este tipo de projectos podem trazer muito lucro aos festivais, pois exigem menos custos ao nível de logística e, actualmente, atraem muito mais pessoas do que a chamada “música de guitarras”, que, pessoalmente, me preenche muito mais “as medidas”. Toda esta situação pode comprometer muitas tournées e prejudicar a indústria musical, que, como referia, também enfrenta uma crise.

Veja-se, por exemplo, o caso de Cat Power, que revelou, numa rede social na passada semana, dificuldades financeiras. A digressão europeia da artista esteve em risco, pois até os mais aclamados e reconhecidos artistas do panorama popular vivem dificuldades. Desta feita Chan Marshal, que vê a sua situação agravada por um edema de origem nervosa, optou por “cortar” em elementos cénicos que utiliza em palco para garantir que vai conseguir cumprir a tournée europeia até ao fim. Entre os vários cortes está o curioso gorila, que a banda integrou no espectáculo através de uma projecção muito particular. "A digressão europeia vai em frente. Sem cenários. Dinheiro mal gasto. Adeus gorila". Afirmou a americana de 40 anos, que me deixou mais uma vez pensativo.

Agora dava por mim a tomar um anti-inflamatório, na penumbra da noite, e a pensar que certamente haveria outras pessoas com problemas bem superiores ao meu e que mais tarde ou mais cedo iria melhorar. Por enquanto observava as cordilheiras compostas por lenços de papel que fui desperdiçando ao longo do serão, ao mesmo tempo que concluía que as mutações do vírus da gripe serão afinal muito idênticas às da indústria musical, visto que as correntes, as modas, as gerações e a tecnologia influenciam todo um conjunto de músicos, artistas e consumidores. Talvez ainda não esteja preparado para as mudanças que se operam, mesmo que já tenha nascido muito após a geração “analógica”. Fico apenas com a esperança de que a tecnologia, a economia e arte possam estabelecer uma “balança de três pratos”, em que nenhum pese demasiado em detrimento dos restantes, e que sobretudo todas as opiniões, tal como os antibióticos e o organismo, possam convergir numa solução produtiva e não em discussões disfuncionais, típicas de fóruns online, onde a construção passa para segundo plano e a destruição toma um lugar dominante.