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Rubrica: Ocarina do Tempo #4

19 de Novembro...


Nesta quarta edição da rubrica Ocarina do Tempo, viajaremos até 1960. Altura em que os Estados Unidos da América atravessavam uma fase muito importante na proclamação dos direitos dos cidadãos afro-americanos. Foi exatamente a 19 de Novembro de 1960, que a canção «Georgia On My Mind», de Ray Charles atingiu o número 1 da tabela de vendas da Billboard, a Billboard 100. Mas não foi esta a única conquista do artista natural da Geórgia – um dos Estados norte-americanos que mais sofreu com a discriminação racial – Ray conseguiu transformar uma simples canção popular no hino de um Estado.

Desenvolveram-se grandes tensões entre o norte e o sul dos Estados Unidos, em 1860, aquando da eleição de Abraham Lincoln, republicano abolicionista, para presidente. Em 1861 iniciou-se então aquela que viria a ser conhecida pela Guerra de Secessão. Esta guerra opôs 11 Estados Confederados do Sul, defensores da escravatura, contra 19 Estados do norte a favor a abolição da mesma. Estes foram os principais ideais que colocaram o norte e o sul dos Estados Unidos numa guerra sangrenta, resultando numa vitória por parte dos Estados do norte. Em 1865, fora oficialmente abolida a escravatura.

Finalizada a guerra e depois de ter sido readmitida como Estado americano, em 1868, a Geórgia acabou por ser expulsa, em 1869, por recusar-se a validar a 15ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que concedia o direito de voto a todo o cidadão masculino e de maior idade, independentemente da raça. Só mesmo em 1870 é que foi aceite tal autenticação pelo Estado da Geórgia, tendo sido o último Estado americano a ser readmitido à união dos EUA. Nesta altura, já mais de metade da população da Geórgia era afro-americana.

Até à primeira metade do século XX, as escolas da Geórgia ainda eram vitimas de segregação. Foi através de uma ordem da Suprema Corte americana, que o governo da Geórgia foi obrigado a integrar crianças afro-americanas nas suas escolas, sob pena de encerramento do ensino no Estado. Em 1961, pela primeira vez em toda a história do Estado, foi possível uma coabitação entre crianças brancas e crianças negras em ambiente escolar.

A década de 60 foi muito marcante nos EUA no que diz respeito à igualdade racial. Em 1964 foi publicada uma lei que concedia uma série de direitos aos negros americanos, que veio a desencadear movimentos em prol da supremacia branca. Muitos negros ainda chegaram a ser linchados e queimados por grupos de terroristas organizados como os Ku Klux Klan (KKK), que retomaram a sua atividade depois de uma pausa de 50 anos.

Foi com todo este cenário de novas implementações de direitos e evolução de um conceito global de cidadania, que Ray Charles, nascido em Albany, Geórgia, compôs aquele que viria a ser o hino do Estado, «Georgia On My Mind».

A canção foi escrita em 1930 por Hoagy Carmichael (música) e Stuart Gorrell (letra). Aparentemente a letra foi dedicada por Gorrell à irmã de Carmichael, no entanto, a ambiguidade da música leva a crer que a mesma possa ter sido dedicada ao Estado norte-americano em questão. A música acabou por ser gravada, a 15 de setembro de 1930, por Hoagy Carmichael e a sua orquestra, mas só 30 anos depois, em 1960, é que o êxito ganhou as proporções que hoje lhe são reconhecidas, pela mão de Ray Charles.

Versão original de «Georgia on My Mind» por Hoagy Carmichael

Há uma história que conta que a inspiração para compor o tema veio de um concerto que Ray se recusou a dar. Ao que parece, o artista chegou ao local onde iria decorrer o espetáculo e deu de caras com uma manifestação devido ao facto de não deixarem entrar negros no concerto. Ray, como protesto antirracista, recusou-se a subir ao palco na mesma noite. Como consequência foi obrigado pelo governo a abandonar o Estado da Geórgia. Com base nesse acontecimento, Ray Charles escreveu então o tema «Georgia On My Mind» e incluí-o no álbum The Genius Hits The Road, lançado em finais de 60.

Uma semana depois de ser gravado, o tema atingiu o número 1 da lista Billboard 100 – exatamente no dia 19 de Novembro de 1960 – porém, a reconciliação com o estado da Geórgia só viria a acontecer em 1979, aquando do convite para interpretar o tema no contexto da Assembleia Geral da Geórgia, como símbolo da reconciliação com os direitos civis. A canção viria a ser adoptada como hino do Estado da Geórgia em abril do mesmo ano. A música acabou por ser utilizada numa montagem vídeo sempre que a televisão estatal saía à noite do ar, sendo apenas interrompida, em 2009, devido ao início das transmissões constantes, 24 horas por dia.

Versão de «Georgia On My Mind» por Ray Charles

Para além de ter sido a primeira canção de Ray Charles a atingir o número 1 dos tops de vendas norte-americanos (seguir-se-iam temas como «Hit The Road, Jack» e «I Just Can’t Stop Loving You»), «Georgia On My Mind» veio atingir aquilo que seria impensável acontecer durante todo o século XIX e na primeira metade do século XX: uma música de um artista afro-americano assumir-se como o hino da Geórgia, um Estado onde o racismo prevaleceu durante décadas.




Rubrica: Ocarina do Tempo #1


29 de outubro...

Começa hoje, segunda-feira dia 29 de outubro de 2012, a rubrica «Ocarina do Tempo» de minha autoria que, como o próprio nome indica, irá relatar viagens no tempo relativas ao mundo da música. Com periodicidade fixa, a rubrica focar-se-á no dia do mês correspondente à segunda-feira a que é publicada, de forma a contextualizar e realçar os acontecimentos musicais ocorridos nessa data.

Foi exatamente no dia 29 de outubro de 1983, que o álbum Dark Side of The Moon dos Pink Floyd bateu o recorde do maior número de semanas na lista dos melhores álbuns da Billboard, a Billboard 200. Destronando assim o até então líder Johnny Mathis, com o álbum Johnny’s Greatest Hits. Foram precisas 491 semanas para ultrapassar o norte-americano – cantor de música popular que ficou mundialmente conhecido com a canção «A Time For Us», tema do filme «Romeu e Julieta», de Franco Zeffirelli.

Músicas como «Wonderful! Wonderful», «It’s Not For Me To Say» e «Chances Are», fazem parte do Johnny’s Greatest Hits, que para além de ter sido o primeiro álbum do género a ser lançado na história, ainda é o segundo com a maior presença na Billboard 200 de sempre.

Dark Side of The Moon, álbum lançado a 24 de março de 1973, ainda se manteve na popular lista da Billboard até perfazer um total de 591 semanas consecutivas, recorde que ainda perdura até aos dias de hoje. Este disco, para além de ser um dos grandes clássicos do coletivo britânico de rock progressivo, é também um dos trabalhos que mais define Pink Floyd em termos de sonoridade, onde ambientes sombrios e atmosferas psicadélicas são explorados, com recurso a efeitos cuidadosamente colocados e muito experimentalismo à mistura, características tais que são um legado de Pink Floyd.

Capa do álbum Dark Side of The Moon de Pink Floyd

Este é o oitavo registo da banda, que se destaca também por ser um dos que mais marcado está pelo trauma da saída de Syd Barrett em 1968 por doença mental. Dark Side of The Moon, vendeu mais de 50 milhões de cópias em todo o mundo, sendo um dos álbuns mais vendidos, não só da banda mas também do Reino Unido, com mais de 15 milhões de discos comercializados em todo o país. Reunindo temas como «Breathe», «Time», «Money» e «Us & Them», Dark Side of The Moon, é ainda nos dias de hoje um dos melhores álbuns de rock progressivo e uma influência para muitas bandas que quiseram seguir as mesmas pisadas que Pink Floyd.

Também no dia 29 de outubro, mas desta vez do ano de 1965, é lançado o single «We Can Work it Out» dos Beatles, que possuía dois lados A, juntamente com a canção «Day Tripper». Oito anos depois, exatamente no mesmo dia, John Lennon lançou «Mind Games» acompanhado por um LP com o mesmo nome.

Em 1990 foram homenageados, para a lista do Rock and Roll Hall of Fame, nomes como Wilson Picket, Ike e Tina Turner, The Birds, The Impressions, LaVern Backer, Jimmy Reed e John Lee Hooker.

E, em 2005, para a 25ª celebração do Rock and Roll Hall of Fame, tiveram lugar uma série de concertos no Madison Square Garden, em Nova Iorque. Do cartaz fizeram parte artistas como Bruce Springsteen, Bono, Mick Jagger e Aretha Franklin.