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João Correia: Mais do que um elemento do núcleo

Em pequeno esteve dividido entre a guitarra e a bateria. Começou pela primeira, mas acabou por confessar o seu amor pela segunda. Aprendeu a tocar sozinho, a ver cassetes de vídeo, e mais tarde decidiu investir na sua formação técnica. Toca bateria com a Márcia, Walter Benjamin, Frankie Chavez e tantos outros projectos. Em 2009 decidiu que também haveria de deixar a sua marca na música portuguesa. João Correia é metade do génio criativo de Julie and the Carjackers e, sozinho, tomou agora as rédeas de Tape JUNk.

“Comecei muito cedo, tinha 10 anos quando comprei a minha primeira guitarra”. É assim que João Correia começa por contar a sua história. Aprendeu a tocar com os dois primos mais velhos e, quatro anos depois, compraram um gravador e formaram uma banda punk. Foi assim que João gravou as suas primeiras demos. Umas com os primos, outras em nome próprio, mas tudo de forma ainda muito amadora. “Só agora, com os Julie and the Carjackers, estes anos todos depois, é que senti que percebi como as coisas funcionavam. Consegui pôr um disco cá fora em nome próprio e ter orgulho nisso”.

Inicialmente optou pela guitarra e, depois de ter aprendido as bases, achou que fazia mais sentido passar para a bateria. “O meu primo também tocava guitarra daí que pensei que fazia mais sentido ter uma bateria para o poder acompanhar nas músicas. Comprei a bateria passado um ano e nem sabia tocar”. Do punk para o jazz é uma transição um pouco estranha, mas motivada, principalmente, por uma curiosidade crescente. “Ia sempre ao CCB das 19h às 21h, onde vias concertos de jazz, de duas horas, de borla. E pensava: isto é incrível! Um tipo que ouve rock e punk rock desde sempre e de repente chega ali e começa a ver os músicos de jazz a tocar, Eu, que estava a tocar com força, não sabia muito sobre destreza e técnica. Para mim eram coisas novas. Eu ficava louco com aquilo e não percebia nada do que se estava a passar: os solos, tudo. Não percebia a construção, nada“. Sem grandes conhecimentos de técnica, fez os testes de admissão para um curso de cinco anos no Hot Club. Tocou com várias pessoas e fez alguns contactos até perceber que o jazz não era para ele. “Percebi que não me vinha do coração e perdi a parte curiosa porque percebi como funcionava”. 

Preferiu antes deixar a sua marca na música. Desde 2009 que divide o tempo entre a bateria, o microfone e a guitarra, pois passou a escrever, cantar e gravar as suas músicas. “Basicamente é o que fica. Ninguém vai dizer «ele tocou muito bem bateria neste concerto» (risos)“. O percurso da composição levou-o até aos caminhos da simplicidade da folk. “Eu costumo escrever a melodia ao mesmo tempo que escrevo a letra, para os acordes irem ao encontro das palavras que estou a dizer. E estes são acordes base, o mínimo dos mínimos para suportar o que estás a fazer. Isto fez-me pensar sobre simplificar ao máximo a base musical das canções para que o que eu estou a dizer e a cantar passar mais cá para fora em vez de estar a por muitos adereços. E a folk tem essa cena muito simples, despida e honesta que hoje em dia me interessa mais do que muitos outros estilos musicais”. Quanto a influências dentro deste estilo, refere a simplicidade de Johnny Cash como algo incrível, bem como o “ar de cara podre nas letras”.

João Correia faz parte de uma das mais recentes gerações da música portuguesa. Uma geração que encontrou conforto na simplicidade dos discos da folk e no outro lado do Atlântico. Uma geração que partilha palcos, mas também músicos, numa série de laços e ligações que se estabeleceram desde os tempos do liceu. “Uma das pessoas que mais contribuiu para isso foi o Walter Benjamin. O Tiago Sousa, que é pianista, era meu colega do liceu e já na altura tínhamos umas bandas de rock. Mas foi quando formámos os Goodbye Toulouse que começámos a estabelecer outros contactos”. Márcia, que na altura cantava com o Real Combo Lisbonense, um dia ligou-lhe para gravar a bateria no seu disco. “De repente estávamos todos nas mesmas bandas e na mesma editora, a Pataca”. Estabeleceram amizades entre eles e com as outras bandas da editora, como se de uma bola de neve se tratasse, utilizando uma expressão do próprio. “Criou-se um núcleo de bandas que fazem o mesmo estilo musical e que se dão todas muito bem”. O que, como em tudo, tem os seus prós e contras. Se por um lado há uma empatia musical muito admirável, derivada do facto de as pessoas gostarem de tocar e trabalhar umas com as outras, por outro as bandas perdem um pouco a sua personalidade, quando os seus membros integram estes núcleos fechados. “Isso acontece muito cá em Portugal, são sempre os mesmos músicos a colaborar. E no jazz então é muito natural. E contra mim falo, neste disco [Tape JUNk] fui buscar o baixista e o baterista de Julie and the Carjackers. Não havia ninguém que percebesse o conceito deste disco tão bem como eles e que fosse tocar exactamente como eu queria, não resultaria de outra forma. Preferia mostrar uma banda completamente diferente, mas assim é mais honesto”. É justamente esta honestidade que aconselha as bandas a mostrar porque apesar das dificuldades “se a música for honesta, alguém há de pegar”. E a internet é uma ferramenta muito útil.

Os Nirvana e os Pixies fizeram-no querer tocar, os dEUS fizeram-no querer escrever letras. Mas foi com as cassetes de video de concertos de Guns n’Roses e ACDC que aprendeu a dar os toques na bateria e foi com os compositores brasileiros que aprendeu a escrever. “A primeira vez que ouvi a «Construção« do Chico Buarque fiquei completamente obcecado e ouvi-a todos os dias durante uma semana. Ele, o Jobim, o Milton Nascimento e outros tantos fizeram-me prestar atenção às letras e à maneira de escrever”. Ainda assim, confessa que se sente mais confortável a escrever em inglês, embora não descarte o português.

The Good and the Mean é o nome do primeiro álbum de Tape JUNk, com o selo da Optimus Discos. Um álbum pessoal, mais não seja por a capa ser uma fotografia de João em criança, e até terapêutico, com influências folk e com o lançamento previsto para o próximo mês de Junho.

Capitão Ortense e o Hard Rock Rising: a hangover depois da vitória

Chegaram à final da Hard Rock Rising'2013 entre nove concorrentes. O protocolo pedia que fossem os últimos das três bandas a actuarem no pequeno palco do Hard Rock Café, em Lisboa, no passado dia 25 de Março. O facto parece ter funcionado a favor deles. Saíram vencedores da battle, que os colocou como adversários de Dark Waters, de S. Pedro do Sul, e Caelum's Edge, do Barreiro.

Já passava da meia-noite quando o jurí se mostrou pronto para anunciar o resultado da votação. Com uma diferença ténue em relação ao segundo classificado (Caelum's Edge), os Capitão Ortense fizeram jus ao nome. Em entrevista ao Off The Record, João Catarino, vocalista, confessou que nem queria acreditar no que ouviu: "Entre todo o nervosismo e tensão reunidos na hora decisiva, foi algo chocante ouvir da boca de João Pedro Pais o nome da nossa banda. Foi uma mistura de euforia com perplexidade".

Rui M. Leal  . facebook/hardrockcafelisboa
A disputa pela vitória contra o metal profundo de Dark Waters (banda liderada por Sérgio Lucas, vencedor da segunda edição do programa de talentos, Ídolos, em 2004), e do inaugural space rock - género definido pelos próprios músicos da Margem Sul - inspirado nas magnitudes de U2 ou de 30 Seconds to Mars, os Capitão Ortense sabiam onde estavam metidos. "Nunca pusemos de parte a hipótese de poder ganhar, mas a concorrência era forte, o jogo estava aberto e tudo podia acontecer", explicou João.

A decisão tomada pelo painel de jurados - Arte Sonora, Everything is New, João Pedro Pais, MTV Portugal e Rádio Comercial - valeu-lhes uma entrada directa para o Palco Heineken no próximo Optimus Alive. João chama-lhe "um sonho tornado realidade", e acrescenta que o facto de irem fazer parte do cartaz do festival é "a recompensa do trabalho e dedicação" da banda. O jovem de 20 anos, estudante de Direito, reconheceu ainda a importância das próximas mudanças: "Temos noção que este concurso alterou por completo o nosso percurso, cainda na incerteza do que irá acontecer daqui para a frente."

Apesar da qualidade do som pouco perfeita daquela sala emblemática, os Capitão Ortense beneficiaram da voz clara de João - mesmo concorrendo contra uns Caellum's Edge apetrechados de sintetizadores, sons adicionados ao live act a fazer lembrar ecos de estádios cheios e de uma plateia treinada para o final do mini-concerto, ou contra uns Dark Waters poderosíssimos e confiantes na postura quase animalesca de Lucas. Apresentaram-se com um rock popizado maistream, mas com pontas de inteligência muito criativas e com a certeza de que sabem mesmo bem mexer nas guitarras, que parecem tocar desde miúdos.

A média de idades não é uma dor de cabeça. O baterista chama-se Pedro Costa, tem 20 anos e é estudante de Ciências Musicais na Universidade Nova de Lisboa. Ricardo Mendes, também com 20 anos, estuda Engenharia do Som no Instituto Superior Autónomo de Estudos Polítécnicos (IPA) e ocupa-se da guitarra ritmo. E Pedro Gonçalves é colega do Ricardo no IPA, mas é mais novo um ano e é quem manda no baixo.

Os quatro conheceram-se no Centro de Estudos de Fátima, tocaram juntos na escola e eis que resolveram formar a banda há cerca de dois anos e meio. O nome 'Capitão Ortense' "surgiu de uma conversa improvável entre dois amigos músicos que tentavam juntar nomes para bandas simplesmente por brincandeira". A brincadeira ficou séria e foi a junção estranha dos nomes que os fascinou. João diz que houve "vontade de permanecer com [a escolha] para ver se as pessoas aceitavam bem". "Até hoje já ouvi um bocado de tudo em relação ao nome, normalmente de espanto por não se perceber o seu significado aparente", contou ao Off The Record.

E, talvez por causa do à vontade entre eles, a preparação para o evento não fugiu muito da normalidade. João esclarece que fizeram ensaios períódicos como até então tinham realizado, mas agora de uma "maneira mais organizada e profissional". Afinal já andavam com o Hard Rock Rising debaixo de olho há algum tempo: "A ideia [de participação] surgiu já na edição anterior, na qual não conseguimos participar porque a banda estavam em alteração dos membros". No entanto, "o sentimento perdurou até este ano. Fizemos tudo para vingar a oportunidade", contou João.

E o facto de cantarem em português parece ter sido outro ponto a favor naquela noite, já que acabaram por se tornaram na primeira banda a vencer o concurso sem ter que recorrer a línguas estrangeiras. João é quem se encarrega da escrita das letras, as quais são posteriormente analisadas por todos. O objectivo é simples. É para que "soe como todos querem e para que faça sentido dentro dos nossos objectivos", afirmou.  Diz que o processo criativo é diferente de música para música e que tem, regra geral, uma "ideia primária" pensada por ele. 

Rui M. Leal  . facebook/hardrockcafelisboa
Não são estreantes nas actuações ao vivo. O ano passado estiveram no Festival do Avante e a memória só lhes traz boas recordações: "Foi dos momentos de banda mais felizes que tivemos antes da noite de segunda-feira. Foi uma oportunidade gratificante e única. Esperamos lá voltar um dia", recorda João. Ainda assim, o líder do grupo explica que as coisas eram diferentes até ao último ano:"O facto de sermos de longe dificultava a nossa visibilidade, mas desde que estamos todos a viver em Lisboa, o aparecimento começou a ser mais regular. É mais fácil chegar ao públlico que não nos conhece".

A questão da visibilidade vai também ganhar outros contornos. A vitória dos Capitão Ortense nesta competição coloca-os ainda numa órbita ainda maior.  Vão ser sujeitos a uma nova apreciação: podem ser escolhidos para figurar nas dez melhores bandas da plataforma internacional do formato, das quais será ainda escolhido o top três por parte de profissionais da indústria da música.  Se tudo lhes correr bem podem vir a actuar no festival anual Hard Rock Calling, que este ano acontecerá no Parque Olímpico Rainha Isabel, em Londres.

«Falsa Melancolia» é o tema com o qual se andam a apresentar. O título da música, directo e perceptível como eles, espelha aquilo que são.  Quando lhe perguntámos qual é o maior sonho da banda, o músico foi, ao mesmo tempo, prudente e emotivo: "Os sonhos vão sendo construídos à medida que vamos crescendo. Temos ambição de tocar em grandes palcos, mas nada se compara à ambição de fazer para sempre parte do grupo em que estamos, e que a relação que temos não se sinta nunca afectada". São bons miúdos, com as ideias a fervilhar e com muito pouco espaço para ficarem enclausuradas.

Em nome da banda, João definiu, por fim, a vontade que têm em serem uns verdadeiros artesãos do som: "Além de uma simples denominação de capacidades, o facto de reconhecerem a nossa humildade em querer trabalhar com música todos os dias é o melhor elogio que se pode ouvir".

 
 

Alex D'Alva Teixeira em entrevista


"Um gajo que faz cenas fixes"
Fotografia de Vera Marmelo

É com esta modéstia e talvez ingenuidade que Alex D’Alva Teixeira se descreve. Tem 22 anos, vive na Moita e a sua história dava um filme, não, uma série! “Se pudessem agarrar na história teria de ser contada em forma de websérie daquelas de baixo orçamento”. O talento e a sorte de Alex levaram-no até ao patamar onde está agora: com um single a passar nas rádios, um EP lançado e um álbum a caminho.

Podemos dizer que o Alex tem duas paixões: O design e a música. A primeira foi uma paixão que foi desenvolvendo, enquanto que a segunda sempre fez parte de quem ele é. “Tudo começou quando andava no infantário. Ofereceram-me um gravador de cassetes no Natal e o que eu fazia era inventar músicas, juntando sons que gravava. Ainda tenho essas cassetes.”
Apesar de, na altura, se descrever como irritante foi essa insistência, demonstrada nesses primeiros passos, que o levou a investir na música, sempre muito encorajado pelos seus pais, que achavam muita piada quando o Alex “ia brincar às bandas”.

A brincadeira tornou-se séria quando o Alex começou a lançar as suas músicas na internet e a ver que estas tinham uma visibilidade maior do que a esperada, razão pela qual tem uma forte presença nas redes sociais e valoriza muito este meio para a divulgação do seu trabalho. “No ano passado, no Natal, gravei uma mixtape, que meti online para que todos pudessem fazer o download e isso acabou por chegar a mais pessoas do que o que eu esperava. Acabei por ficar surpreendido com o que fiz.”

Ben Monteiro e Vitor Azevedo tocam com o Alex na banda à qual ele empresta o nome. Conheceram o Alex num festival de bandas que o próprio organizou e na altura pertenciam ambos a bandas das quais ele gostava. Ambos concordam que esta história do Alex como underdog que acaba por vingar não é só sorte nem só talento, mas também vontade de fazer e de “se mexer”. “Eu conheço o Alex porque ele se mexeu, porque ele organizou um festival e convidou a minha banda para lá tocar, o que me fez conhece-lo e, depois de vários processos e contactos, estamos aqui hoje.”, diz Ben Monteiro, realçando a importância desta proatividade que é comum aos três elementos.

Assinou com a FlorCaveira e lançou o EP Não é um projeto, em Junho. “O título do EP é uma piada. Nós fomos tocar à final do Termómetro, no Porto e no dia seguinte tínhamos vários blogs a escrever sobre o projeto Alex D’Alva Teixeira então foi um bocado confuso porque na altura éramos quatro pessoas em cima de um palco e é o meu nome que aparece. Então resolvemos fazer essa piada, o Alex não é um projeto, é uma pessoa, é um rapaz”.

Uma das características que melhor define Alex D’Alva Teixeira, enquanto pessoa, é a sua versatilidade, sendo que consegue ser influenciado por bandas dos mais variados géneros, como Underoath ou Bloc Party, por exemplo. Ben confessa que a música que fazem já começa a ter um bocadinho de todos e que o seu objetivo é ajudar a descobrir o Alex no meio de todas as suas mais variadas influências. Como? Não impondo limites, libertando-se de tudo.“Uma coisa que percebemos rapidamente é que o Alex ouve muita coisa, faz muita coisa e produz muita coisa diferente. Não fazia sentido, de maneira nenhuma, estar a restringir isso”. “Uma das coisas engraçadas quando incorporas a ideia do não estar preso a nada é que te podes divertir muito ao fazer música das mais variadas formas, mudando os estilos das canções”, completa Vitor.

Alex, Vitor e Ben querem ser conhecidos por esta versatilidade e imprevisibilidade. Não falam do disco que vão lançar, apenas dizem que é um disco muito heterogéneo.

Agora que estamos prestes a entrar num novo ano, o Alex faz o balanço do que passou e considera-se sortudo. “Em 2012 aconteceu tudo: é o ano em que sai o EP, em que consegui chegar até mais pessoas e até mesmo o ano no qual a minha familia consegue dar algum crédito aquilo que eu faço.”. Diz que no futuro o seu objetivo é ser criativo e ser distinguido como um artista, não só um músico ou um designer. “Acho interessantes pessoas como o Salvador Dalí, por exemplo. Ele fazia tanta coisa diferente. É certo que é mais conhecido pela pintura, mas fazia tanto”. Confessa que gostava de experimentar ilustração e investir na área audiovisual, embora, de momento, se queira focar ao máximo em evoluir musicalmente. “Eu acho que a minha vida seria incompleta se só pudesse fazer uma coisa.”, conclui.