Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas. Mostrar todas as mensagens

Festivais de norte a sul: Grandes nomes para todos os gostos

Com o Verão chega uma das alturas mais esperadas por muitos: a dos Festivais de Verão. De norte a sul do país, os recintos enchem-se de pessoas que querem sol, calor, música, diversão e fugir do ritmo frenético da cidade durante uns dias.

Comecemos então esta nossa viagem por aquele que inaugura a época dos festivais de verão, e que, curiosamente, é o bebé dos festivais, ainda que seja, ele próprio, um festival urbano. Falamos, pois, do Optimus Primavera Sound, de 30 de Maio a 1 de Junho. Importado dos nossos irmãos, assemelhando-se à versão espanhola que se realiza em Barcelona, e que, com apenas um ano de idade, conseguiu fixar já no Porto a reputação de um festival que consegue reunir a “creme de la creme”, no que diz respeito à música alternativa. Se no ano passado nomes como Wilco, The Flaming Lips, Kings of Convenience, The XX ou The Walkmen passaram pelo Parque da Cidade, este ano a fasquia está certamente elevada. Com Dead Can Dance, My Bloody Valentine, Blur, Nick Cave and The Bad Seeds, Grizzly Bear, James Blake, Explosions in the Sky, Deerhunter, Rodriguez, Meat Puppets, Local Natives, Guadalupe Plata ou The Glockenwise, conjugando os regressos e as novidades, o festival torna-se dos mais apetecíveis e uma excelente forma de dar início a um verão que se apresenta preenchido. De destacar os portugueses Paus e Memória de Peixe, que se juntam aos nomes já mencionados acima e a tantos outros, alguns deles, inclusivamente, escolhidos pela publicação Pitchfork.


Rumamos a sul, em direcção à Ericeira e ao Sumol Summer Fest, o festival onde o reggae é o rei e onde o ideal de verão, praia e boas vibrações assenta que nem uma luva. De 27 a 29 de Junho, sendo que dia 27 é uma welcome party para os campistas, nomes como Alborosie, Dub Inc, Morgan Heritage e o português Orlando Santos, vão animar as tardes e as noites no Ericeira Camping.


Julho começa com EDP Cool Jazz, um festival onde o Jazz dá lugar a outras vertentes e a uma mistura de géneros. Ana Moura e Luísa Sobral, que em comum têm uma vontade e desejo de fundir sonoridades e uma ida ao programa de Jools Holland, na BBC, iniciam o festival em português. Por lá também passam nomes como Rufus Wainwright, Diana Krall, Jamie Cullum, Maria Gadú e Djavan. A expectativa recaí sobre o norte-americano John Legend, que encerra o festival a dia 27 de Julho. Depois de um álbum com os The Roots, estreia-se em Portugal e traz na bagagem muitos sucessos e o mais recente Love in the Future.

Mas, antes disso, acontece o festival que promete ter "o melhor cartaz, sempre". O Optimus Alive, no Passeio Marítimo de Algés, também ele um festival urbano, realiza-se de 12 a 14 de Julho e, como sempre, traz grandes nomes. Essa é, aliás, a única característica que se mantém, num festival que tem estado em constante mutação. O dia do metal ou do rock mais pesado foi-se lentamente transformando no dia do hype, e em 2013, temos essa consagração. Grandes nomes como Depeche Mode, Jurassic 5, Editors, Green Day, Kings of Leon ou Vampire Weekend juntam-se a fenómenos de popularidade recente como Alt-J, Django Django, Of monsters of men e AlunaGeorge, para formar o cartaz de um festival que outrora trouxe nomes como Rage Against The Machine ou The White Stripes. Regressos e fenómenos que fazem o Alive perder o sentimento de descoberta de novas bandas, pelo qual foi também inicialmente valorizado.

Os dias 18 a 20 de Julho são os dias disputados pelo Super Bock Super Rock e pelo Meo Marés Vivas. O primeiro no Meco e o último em Vila Nova de Gaia. Se o Alive mudou, o Super Bock deu uma volta de 180º. Deixou o rock pesado e deitou-se na praia do alternativo, nas paisagens do Meco. Pós à parte, muitos têm saudades da versão urbana e citadina, outros dizem que agora, sim, há um festival de rock como deve ser. Na sua 19ª edição, o Super Bock Super Rock está mais português. Nomes como Mazgani, Samuel Úria, Manuel Fúria e os Naufragos, Asterisco Cardinal Bomba Caveira, Sam Alone and the Gravediggers ou Anarchicks, vão subir aos palcos da Herdade do Cabeço de Flauta. A juntar a nomes como Queens of the Stone Age, Arctic Monkeys, Johnny Marr, Tomahawk ou Black Rebel Mortocycle Club, reúne nomes esperados e há muito pedidos e condensa muito do que se tem feito na música portuguesa.
Já o festival Marés Vivas tem vindo a corresponder a um padrão de ano bom, ano mau, como que um cara ou coroa, sendo que 2013 é claramente um ano coroa. Conseguiram a proeza de tirar o David Guetta do Sudoeste e repetem nomes que recentemente estiveram em palcos portugueses, como The Smashing Pumpkins, James Morrison ou 30 Seconds to Mars. Além disso jogam pelo seguro com nomes portugueses como Rui Veloso ou Virgem Suta. A surpresa vai para o regresso de Bush, Klaxons e La Roux. Resta saber se serão nomes capazes de fazer frente à concorrência e de arrastar multidões até ao Cabedelo.


Os festivais deste ano também dividem artistas, como é o caso dos Orelha Negra, que marcarão presença no Meo Sudoeste e no Marés Vivas, e dos Toy, que estarão no Super Bock Super Rock, seguindo para o Vodafone Paredes de Coura, o que acaba por ser lamentável, numa altura tão rica musicalmente, em que a tecnologia permite que as bandas se apoiem na premissa do “do it yourself” e se lancem de uma forma independente.

 

O Meo Sudoeste, o histórico festival da Zambujeira do Mar, foi outro festival que mudou e agora abriga toda uma diversidade de géneros musicais, desde a electrónica, à soul, ao reggae e ao alternativo. Este ano traz de volta o Snoop, em versão Lion, e traz nomes como Cee Lo Green, Donavon Frankenreiter, Avicii, Soja, Janelle Monáe, Fatboy Slim ou Calvin Harris. O cantor de Gnales Barkley faz a sua estreia por terras lusas, enquanto Fatboy Slim volta novamente depois de uma passagem por cá, no ano passado. Já a cantora de «Tighrope» deixou tudo e todos pelo beicinho depois de uma actuação memorável no já extinto Super Bock em Stock, em 2010, e regressa agora a um palco maior, para delícia de muitos dos seus fãs.

Continuamos no zigzag, sul-norte-sul-norte, rumo à última paragem da nossa viagem, o Vodafone Paredes de Coura, na Praia Fluvial do Taboão, outro festival que é alternativo por excelência e que prima muito pelo ambiente e pelo factor de descoberta. Este ano conta com a presença dos já repetentes de outros festivais The Kills, Hot Chip, Alabama Shakes. Os franceses Justice voltam para um dj set. As expectativas recaem sobre os britânicos Everything Everything e Palma Violets, os primeiros pelo segundo álbum que fez sucesso por entre a crítica e os segundos pelo voto de confiança que receberam da BBC e da NME, que os catapultou de imediato para os grandes palcos, ainda que só tenham lançado o primeiro álbum há poucos meses.

 

2013 é o ano de coroação do alternativo que, ainda que de formas diferentes, atravessa praticamente todos os festivais. Há anos recheados de grandes festivais e há anos com festivais com grandes nomes, para todos os gostos. O ano de 2013 insere-se, sem dúvida, neste último.
 

Rubrica: Designer Precisa-se! #8

O quadragésimo primeiro dia

Agora que o Natal passou e que nos preparamos para enfrentar um novo ano, assumo que já sinto a falta das noites quentes e dos longos dias do verão. É verdade, a estação que tanto nos aquece o corpo e a alma já começa a deixar saudades.Afinal quem é que não gosta dos três meses que nos arrastam para as praias do litoral ou para os refrescantes campos do interior? Julgo que ninguém.

De facto esta estação do ano surge em muitas representações musicais, não só pela ligação desta estação do ano com os ritmos latinos e africanos, mas também porque o sol é por si só uma fonte de alegria e vida cuja os povos sempre celebraram ao longo dos tempos através da música. É certo que em alguns locais do globo terrestre o verão é muito diferente do aquele que nos habituamos ver, mas ainda assim é celebrado.  Razão pela qual os Sum 41 tenham escolhido o nome da banda para celebrar o último dia do, curto, verão canadiano, em 1996. Conta-se que banda de pop punk terá desenvolvido um diminutivo da expressão  "41 days into the Summer", usada no Canadá para descrever a sua "quarentena veraneante".


Still Waiting, um dos singles mais aclamados da banda canadiana.

Apesar de curiosa, esta história não tem livrado a banda de Deryck Whibley de criticas pesadas dos media. A banda já foi enumeras vezes considerada uma das piores da década de 2000, o que contrasta com os discos de Platina e de Ouro conquistados no Canadá e nos Estados Unidos, assim como com os milhões de fãs conquistados no Japão. O culminar do sucesso é atingido em 2005 com a conquista de fãs no velho continente a ser acompanhada pelo galardão de melhor banda rock do ano, nos canadianos "Juno Awards", com o álbum Chuck.

Nada disto podia ter sido alcançado sem dois discos que viriam a marcar a história de qualquer teenager do novo milénio. Antes de mais o alvo do "Designer" desta quarta-feira: o EP Half Hour of Power (2000), que não só foi o primeiro registo da banda como ainda influenciou muito o sucessor All Killer No Filler (2001). Mas vamos por partes.


A capa do primeiro EP dos Sum 41. Uma das mais hilariantes e despropositadas de sempre.
Em 2000, quando optaram por assinar com a Island Records, os Sum 41 lançaram o seu primeiro EP. Descomprometido, violento "q.b", com a genica do punk, os refrões do pop e a "leveza dos 16". Eram estes os ingredientes que figuravam os 11 temas, de um dos maiores EP's que já tive a oportunidade de observar. Aliás não sei se faz muito sentido chamar-lhe EP, mas talvez tenha sido uma forma da banda iniciar o seu caminho na industria musical sem correr grandes riscos. Dúvidas à parte Half Hour of Power é para mim um autêntico tubo de ensaio para o que viria a acontecer um ano depois com All Killer No Filler, álbum onde a banda se afirmou com os marcantes temas: «In too Deep» e «Fat Lip» ou a autobiográfica « Summer». 

É verdade que a história do punk tem para nos oferecer capas gritantes, berrantes e estranhas para os mais distraídos, mas esta não pôde "escapar". Half Hour of Power pode até lembrar-nos dos tempos do American Pie e das típicas acções despropositadas da adolescência,  mas ainda assim não consigo compreender o porquê daquele rapaz surgir numa capa de um EP, em roupa interior, com uma boina militar na cabeça. Para culminar, é claro, aquilo que parece ser um cruzamento entre um utensílio qualquer do "Doraemon" (personagem principal de uma série de anime japonês) e uma típica bisnaga, réplica de uma arma de fogo real. Já para não falar do mar de chamas que circunda este autentico "cromo", que conferem à capa o aspecto de um qualquer filme de acção dos anos 80, com a participação de Arnold Schwarzenegger.    Em suma esta "sleeve" é uma verdadeira "salada russa" de elementos sem nexo e que unidos se tornam hilariantes. De todo o modo o lettering é ajustado ao do logótipo da banda e talvez o elemento mais normal em toda esta estranha composição.



Deixo-vos com os vídeos de «Summer», do EP: Half Hou of Power (2000) e «In Too Deep», do álbum All Killer No Filler (2001):

 «Summer» ao vivo no Readding Festival em 2002


Videoclip de «In to Deep» o single mais aclamado da banda canadiana de pop/punk



E se a música deles também fosse made in Camões?

"Como vi dançar no Zimbabué/Quero também contigo gingar/Uma dança nova/Mistura de Semba com Samba/De Mambo com Rumba/Tua mão da minha/E a minha na tua". A letra de 'Balancê', música retirada do álbum homónimo de Sara Tavares de 2005, faria ainda vez mais sentido se tivesse aparecido nos anos 90. O vaivém das gentes e dos ritmos começou com o 'Nadar' dos Black Company ou com o 'Dançar no Huambo' dos Kussondolola, e o fenómeno ou o processo mais que natural continou com Sam The Kid a samplar Carlos do Carmo ou com os Buraka Som Sistema a pegar num kuduro de Luanda.
Se o fado nasceu de uma mistura de africanidade e de outros sons vindos da terra de Vera Cruz, as mornas de Celina Pereira pouco se afastam de uma Mariza em «Meu Fado Meu». Se o Duo Ouro Negro, nos anos 60, foi pioneiro na mistura de músicas do mundo com semba, folk, samba e outros ritmos tradicionais numa só faixa, Caetano Veloso foi o responsável pelo movimento Tropicália, com Chico Buarque a reboque e Carlos Paredes na guitarra portuguesa, com «Verdes Anos».
Mas se as influências do que antigamente se fazia na música portuguesa ou na música lusfónona (para evitar constrangimentos ou definições deficitárias) estão nas opressões criadas por ditaduras dos anos 60 ou por movimentos libertadores posteriores, já a tocar nos anos 80, representadas por José Afonso com 'Milho Verde' ou por um revivalismo de uns Heróis do Mar e de António Variações, hoje as coisas não têm uma figura muito diferente.
Depois dos pioneiros Tito Paris, Danny Silva ou o incontornável Barceló de Carvalho (vulgo Bonga), em Angola, o hip-hop continua a ser uma forma de música de intervenção, assim como o kuduro o é em estado puro, não sendo sequer um estilo de música. Ao lado ocidente (diga-se, europeu), este chegou sem este lado combativo urbano e foi encarado como um ritmo, de forma muito simples como esta definição, capaz de moldar a música lusófona e aquilo que ela é capaz de incorporar.
Com descargas pelo mundo inteiro, atravessando o dubstep, o rap, o reggae, nos anos 90, a música lusófona passou a ser uma música de intervenção. Os Kussondolola faziam desaparecer a postura monopolista do pop-rock de Rui Veloso, GNR ou Xutos e Pontapés, abrindo espaço para que Cool Hipnoise e Mind Da Gap saíssem dos seus subúrbios e entrassem em listas de favoritos ou em Top+.
"Adoro quando te deixas levar assim/Fechas os olhos e danças só para mim/Uma dança tua/Mistura de não vem que não tem/Com um sorriso porém que me diz que o teu desdém/É só a manhã de alguém/que diz que vai mas que vem/Me engana que eu gosto". Mas a letra de Sara Tavares continua a querer dizer-nos que a influência entre os continentes lusófonos ainda não é tão livre quanto pode parecer. A própria Sara tem a holandesa World Connection como sua editora, assim como a sua amiga Mariza – uma das artistas portuguesas (nascida em Moçambique) mais bem conceituadas do mundo – que também é representada pela britânica Universal Music. Em poucas palavras, não se aposta verdadeiramente em música interna em Portugal. São os outros que precisam de fazer o nosso trabalho de casa. Carlos do Carmo diz que continuamos complexados. Que os efeitos de uma era colonial ainda não desapareceram e que, até que assim seja, a música vai ser o que é: cheia de Melo D, Pac Man, António Zambujos ou Orelha Negra, mais ou menos reconhecidos, seja lá de onde for que vem a inspiração. Ou de um Bob Marley de Nile Mille ou de um Seu Jorge, do Rio de Janeiro.
No entretanto, a história repete-se. O som português de hoje é um som de protesto pelo ontem e revolução pelo amanhã. Os antigos dizem que a música de África é muito boa, mas é um regresso ao passado. Mas as novas gerações começam a deixar de sentir isso da mesma forma. E a Sara continua a ter razão. Quem acredita que a música portuguesa não se balança, então é melhor nem tentar perceber se gosta do que ouve dela. No mundo inteiro. "Balancê ye/Balança ya/ Swing para lá/Swing para cá ye/Swing no pé/Senão chega p´ra lá ye"


Opinião sobre o que define Dezembro

Durante anos fui pensando no facto de as músicas de natal servirem realmente para ouvir. Durante o ano as músicas de natal "sabem" melhor.
Essas cançõeszitas de natal não me fazem lembrar o natal . «Last Christmas I Give You My Heart» é uma das que consigo ouvir e mas não procuro ouvir. Eram dois gajos a cantar sobre algum tipo de sentimento que tinham pelo natal. E para quem não liga ao natal? que tipo de músicas há? As canções são giras mas não no natal.
Na minha opinião, não existe "tusa" de ouvir músicas relacionadas com o natal. Apenas ouvimos na televisão ou naquele anuncio da Optimus. É como se fossem uma categoria de músicas diferente, outro género musical simplesmente por certas canções terem sons de sinos e miúdos a gritar. O meu ouvido e os meus olhos são capazes de deturpar e marginalizar tanta coisa que este "devaneio" se torna uma das balas perdidas que saiu desse pensamento sobre o natal.
Servem talvez para vender... álbuns que saem no natal são possíveis presentes no sapato que antes era meia.   Capitalismo emerge até na época em que todos decidem pôr o Coro Infantil de Santo Amaro( que durante o ano ensaia o seu típico reportório de natal) e que todos decidem ajudar os artistas da rua do Carmo em Lisboa.
É natal. Neva lá fora, os putos brincam e os velhos aquecem-se. "Vão aos saltos pela casa,descalsos ou em chinelas, procurar as suas prendas tão belas". Sábias palavras de... ainda são pequeninos?








Rubrica: Este é o primeiro riff do resto da tua vida #5

Chapéus há muitos!

A história de hoje começa com um copo de moscatel e um típico almoço de família no qual os meus pais recebiam, em nossa casa, a visita dos meus tios do Alentejo. Nessa época eu devia ter uns dois ou três anos e a minha mãe já denotava em mim uma incontrolável curiosidade. Característica que dura, de forma muito mais “equilibrada”, até hoje.

Tínhamos acabado de almoçar e o meu pai deliciava-se com um belo moscatel de Setúbal, distrito do qual sou oriundo, à medida que ia convivendo com as visitas. Tudo parecia correr na normalidade até que o telefone tocou e ele, pousando o copo na mesa de centro, foi atender. Não sei quanto tempo demorou o telefonema, mas com toda a certeza o suficiente para eu beber uns goles, do dourado néctar peninsular, sem que ninguém desse por isso.

Hoje, se o mesmo acontecesse, significariam só uns goles num largo e pesado copo de vidro, mas naquele tempo significaram, não só uma enorme dor de cabeça para todos quantos estavam em minha casa, como também uma das maiores sestas que já tive oportunidade de usufruir em toda a minha vida.
 “Curiosamente” estávamos entre 1993 e 94, altura em que os Nirvana Lançaram In Utero: o último álbum de originais da banda de Seattle antes da trágica morte de Kurt Cobain. O que definitivamente não me marcou especialmente, visto que aos dois anos e meio eu tinha outro tipo de preocupações, tais como brincar, gatinhar ou dormir após beber “vinho generoso”. Acho que mesmo acidentalmente alcoolizado um bébé nunca gritaria “Rape me, my friend”, como “manda” a quarta faixa do disco da banda de Grunge.

"Rape Me" um dos maiores sucessos de In Utero, o terceiro e último disco dos Nirvana.

Mas este “vício” de querer descobrir o porquê das coisas e de querer viver aventuras não viu um fim, antes pelo contrário, aumentou cada vez mais. Por volta dos cinco - seis anos comecei a “apaixonar-me” por histórias de detectives, muito por conta do carismático engenhoso “Inspector Gadget”, ou até mesmo do pouco conhecido “The Great Mouse Detective”, em português “dublado”: «Basílio: O grande Mestre dos detectives» (aconselho a leitura deste texto). Paixoneta que se foi prolongando, por influência do meu saudoso avô materno, com o visionamento dos filmes das sagas “007” e “Indiana Jones”, que me aguçavam cada vez mais a vontade de querer ser um detective quando fosse “grande”.

Os anos passaram e a realidade começou a soar muito mais “negra” do que aquilo que eu esperava. Por volta dos nove – dez anos tinha já substituído o meu “projecto de vida” e passei a querer ser jornalista, visto que aqueles detetives derramavam demasiado sangue e os jornalistas, também eles curiosos e algo “aventureiros”, apenas, e de forma metafórica, derramavam tinta. Afinal porquê querer ser um herói morto quando poderia ser um “herói” vivo nas leituras diárias de um povo?

A infância passou a correr, mas a vontade de querer marcar a diferença estava agora mais do que nunca a nascer. A adolescência trouxe-me coisas muito boas. Recordo com saudade a audição entusiasta de Make Yourself (1999) , Morning view(2002),  A Crow Left Of The Murder(2004), três dos sete álbuns dos Incubus, uma banda norte-americana que marcou a minha, ainda curta, história como amante de música. A intenção, a mensagem das letras, o som das guitarras de MikeEinziger, o toque “Freestyler” do “Scretcher”  Dj Chris Kilmore, a voz elástica de Brandon Boyd. Tudo corroborava para tornar esta a minha banda favorita, se é que eu tinha alguma.

"Megalomaniac", um dos temas que mais me marcou desde a primeira audição da banda de Brandon Boyd.

Mas para além das muitas horas que passei a ouvir a música destes californianos, acabei também por começar, como qualquer adoloscente, a querer copiá-los visualmente, ou pelo menos, na época, a querer “tirar ideias”. Foi então que a “googlar” encontrei uma foto em que Brandon Boyd aparecia com um chapéu muito particular e que me chamou a atenção, não só pelo formato, como também pela lembrança que me trouxe dos meus tempos de “detective aventureiro”. É certo que já conhecia aquele tipo de chapéus, visto que a minha bisavó guardava, religiosamente, alguns acessórios do mesmo género, que teriam sido usados pelo seu falecido marido. Procurava agora tentar dar um nome a este tipo de chapéu.


Brandon Boyd. Um "pedaço" da foto que me fez começar a ver os velhos Fedora de uma outra forma.
        
Acho que só me preocupei realmente em saber mais sobre este chapéu, quando já estava rendido ao uso do mesmo, visto que só ao fim da terceira compra é que me deparei  com a “minha realidade”. Ao fim ao cabo era, diariamente, inquirido em relação à sua origem, nome e uso, principalmente por todos aqueles que insistiam em chamar-me “Jason Mraz”, “TT” ou “Justin Timberlake”. Três artistas da “cena” Pop, Soul e R&B que também usam chapéus idênticos.

Foi então que descobri que estes acessórios masculinos dão pelo nome de “Fedora” e que no final de contas o seu nome e o seu fabrico até têm mais a ver com música do que aquilo que eu, inicialmente, esperava. Para muitos os também aplidados chapéus “Borsalino”, nasceram no inicio da década de 20 e há quem diga que tenham sido feitos, pela primeira vez, na fábrica “Borsalino”, na Itália. Estima-se que o nome “Fedora” seja anterior a este fabrico e que esteja ligado ao nome de uma dramática peça de teatro russa escrita em 1882. O peça veio a ser trazida para o sul da Europa através, de uma adaptação para a Ópera, do italiano Umberto Giordano.

Este tipo de acessório foi tão usado por actores de teatro, europeus durante as duas primeiras décadas do século, que a partir dos anos 40 se generalizou o sua utilização em Hollywood. Exemplos do uso deste chapéu foram: Frank Sinattra, Anthony Quinn, Fred Astaire, ou a mítica imagem de Gene Kelly em “Singing in the Rain” (1952) (Seranta à chuva). Já para não falar de figuras de proa na História, como Benito Mussolini, Al Capone ou o Papa João XXIII, que vieram a marcar o uso deste tipo de chapéus até meados do século XX.

Gene Kelly em “Singing in the Rain” (1952)

No mundo da música o maior "embaixador" do Fedora foi Michael Jackson, um dos maiores artistas POP de todos os tempos, para muitos o melhor de sempre. Michael uso-o como ninguém, dando-lhe vida entre os esquemas de dança que o identificam até hoje. No fundo uma figura "imortal" que mereceu destaque no porte deste símbolo da masculinidade no século XX. 


Recordemos Michael com os seus Fedora:

Billie Jean ( ao vivo 1983)


Smooth Criminal (1988)


A Primeira Vez #2

Em 2010 os Pearl Jam vieram ao Alive!, no dia 10 de julho. Paguei o dobro do preço por já estarem esgotados e ter de comprar à porta. Se valeu a pena ou não, fica para depois.
Mas não é de Pearl Jam que vou escrever, antes de Pearl Jam tocaram os Gogol Bordello, e nesse concerto senti-me uma sardinha, como nunca me tinha sentido num concerto, nem saltar conseguia. Tive mais espaço em Deftones, em System of a down, em Metallica, Tara Perdida ou Offspring. Aquilo estava quase impossível.

Mas é de Dropkick Murphys que quero falar, da primeira vez que os vi e ouvi.
Já não me lembro a que horas tocaram, mas era de dia. Ainda não os conhecia, não sei porquê, pura e simplesmente nunca me chegaram aos ouvidos.

Vamos dizer que por volta das cinco da tarde, lá estava eu, encostado à grade que separa o lado esquerdo do lado direito, quieto, à espera, quando faltavam umas boas horas para o que eu queria ver. Estava com a namorada e as amigas (não estava muito entusiasmado) e queriam esperar, não me pareceu boa ideia abrir a boca a discordar. Farto de estar em pé, ao sol, cansado, a tentar fazer boa figura sem jeito nenhum quando de repente entram uns gajos para cima do palco. Um tinha uma saia escocesa, o outro tinha um acordeão, o vocalista parecia o Henry Rollins dos Black Flag ao longe, era o Al Barr, bateria, guitarras, baixo, gaita de foles e banjo (tocado por Jeff DaRosa com descendência portuguesa). “O que é que esta gente vai tocar?”.

Quando começou eu nem queria acreditar, onde estiveram os Dropkick a minha vida toda? Dos maiores moches que vi, este está no topos, sapatos a voar, mochilas, gente, crowdsurfs com uns metros consideráveis, pessoas que sabiam o que aquilo era, e se não sabiam pouco importava. Era uma festa punk com um toque irlandês e uma vontade de partir para cima do outro.
Do meu lado não se passava nada, era o lado esquerdo a olhar para o direito mas ninguém queria começar uma festa deste lado.

Passado uns anos, sei agora que tocaram a «Worker's Song», um tributo aos trabalhadores, não os que estão atrás da secretária o dia inteiro, os outros. “In the factories and mills, in the shipyards and mines “ os que os Murphys dizem serem os primeiros a morrer “We're the first ones to starve, we're the first ones to die “. Tocaram a «Shipping of to Boston», «Barroom Hero», «Johny I hardly Knew ya», «Fields Of Athenry»... 

Ao Alive! desse ano só fui esse dia, mas que dia. Não estava mesmo à espera que o concerto de Dropkick Murphys fosse tão bom, mas quem foi, penso que percebe o que estou a dizer.
“Let's go Murphys!”


                                                                                      


Formação:

Ken Casey - Voz; Baixo
Matt Kelly - Bateria; Bodhrán; Voz
Al Barr - Voz
James Lynch - Guitarra; Voz
Tim Brennan - Guitarra; Bandolim; Acórdeão; Voz
Josh “Scruffy” Wallace - Gaita de Foles; Tin Whistle
Jeff DaRosa - Violão; Banjo; Bouzouki; Teclado; Bandolim; Apito; Orgão; Voz






Rubrica: Designer Precisa-se! #5

Um novo Punk

Hoje deixamos os "cintilantes" anos 80 e avançamos uma década. Sim, infelizmente os anos 90 também possuem muito bom material que possa figurar neste “cantinho”. A época pode ser de tenra memória para muitos, mas repare-se que já se passaram 22 anos e, de resto, a década da flanela, do Grunge e do Pop /Punk marcou não só o nascimento do autor da rubrica, mas também o surgimento de ícones incontornáveis na vida de qualquer teenager. Entre as novidades destaco os míticos patins em linha, a revolucionária PlayStation ou o clássico filme da Disney O Rei Leão (1994), que hoje parece coisa de criancinhas, mas segundo me lembro conseguiu que muitos “calmeirões” das escolas secundárias vertessem lágrimas no momento da morte de Mufasa (o pai do pequeno Simba).

Afianço-vos que pegar nestes teenagers não é de todo despropositado e que até faz todo o sentido, visto que os adolescentes foram desde sempre os primeiros alvos das indústrias discográficas a nível mundial. Se pelos anos 50 as novidades circulavam em volta dos “Rockabilly”, que transpiravam brilhantina, e os discos de R&B, nos anos 90 os gostos diversificaram-se entre o Grunge, as Boysbands, o Hip Hop, o Nu Metal e o Pop Punk.

A minha escolha de hoje podia muito bem recair nos Backstreet Boys, nas Spice Girls, ou nos saudosos Nirvana, mas não podia deixar impune a importância de bandas que transformaram o Punk em música “para as massas”. Entre os responsáveis estão os Green Day e os Offspring, duas bandas norte-americanas que marcaram a diferença no mundo da POP entre finais dos anos 80 e a década de 90, justamente por unirem a energia frenética do Punk aos refrões marcantes e coloridos dos registos mais "Populares".


Os Offspring (foto) foram uma das bandas responsáveis pela evolução do Punk Rock e do nascimento do Pop Punk nos anos 90.

No fundo este era um estilo novo, fresco e que remetia os ouvintes para os desportos radicais e para as actividades de alto risco, como o Skate o Downhill ou o Budging Jumping. Esta realidade veio, na época, a formar uma “nova onda” que empolgou os jovens, possuidores de mesadas “sofredoras”, a comprar discos e ver concertos deste “novo Punk”.

Decidi, por fim, escolher os Offspring, visto que, entre a minha pesquisa, saltou à vista a horrível capa de Smash (1994), o terceiro trabalho de originais da banda de Dexter Holland. O lettering não me chocou, é até bem simples e o mais usado pela banda ao longo da carreira, não fosse ele encabeçar um inestético monte de manchas pretas e amarelas, que por cima de um fundo castanho, tentam formar um plano médio de um esqueleto humano. Nada podia piorar, não fosse o nome do álbum surgir em vermelho, o que me lançou uma questão: Quem é que no seu prefeito juízo coloca vermelho sobre este tom, de algo que não devo especificar, e ainda arrisca conjugar manchas para adquirir uma espécie de um “efeito Compton”? Não sei se alguém terá a “envergadura mental” para encontrar uma resposta viável, mas confesso que já me sinto “esmagado” de tanto a tentar achar.


Smash até pode ter marcado a história da editora  independente "Epitaph", mas não deixa de ter a pior capa da carreira dos Offspring.

Tirando este defeituoso “Raio X” o álbum não tem mesmo nada de errado, aliás é até algo marcante, não tivesse sido o disco mais vendido de sempre por uma editora “indie”, até aos dias de hoje, com 6,3 milhões de cópias adquiridas. Este marco histórico motivou uma autêntica “corrida à banda” por parte das grandes editoras americanas que, sem sucesso, foram tentando fazer chegar propostas à banda. Só em 1997, três anos depois, a Columbia Records (actual Sony Music) conseguiu convencer a banda de Huntington Beach, a assinar um contrato discográfico.

Negócios à parte, Smash deu ao mundo dois sucessos incontornáveis na história banda Californiana: “Come Out and Play (Keep ‘Em Separeted)” e “Self Esteem”. O primeiro tema apresenta-nos um arrojo nas composições da banda com um riff baseado numa escala arábica, o segundo fica na memória pelo coro desafinado e distorcido com que inicia.

É óbvio que estes temas não firmaram o sucesso que a banda alcançou com “Pretty Fly (For a White Guy)”, o principal single de Americana, mas deram o mote a muitos dos temas compostos nos álbuns seguintes. Aliás a última faixa, e homónima do álbum Smash, mostra-nos um riff muito idêntico ao que é usado em “Pay The Man”, uma das faixas de Americana.

Com uma melhor ou pior capa o certo é que os Offspring começaram em 94 a coleccionar fãs e um reconhecimento generalizado, que os tornou, não só, num pequeno fenómeno, como também numa referência para esta nova forma de fazer Punk. Hoje já não imprimem a mesma energia que documentam os videoclips, visto que a idade e a massa adiposa já não o permite, mas lançam Days Go By, em Junho deste ano, que não só continua a mostrar do que estes californianos são capazes como também nos brinda com uma capa muito mais agradável a qualquer “vista desarmada”.



Fiquem com os dois grandes êxitos de Smash (1994):

“Come Out and Play (Keep ‘Em Separeted)” 



 “Self Esteem”


Rubrica: Este é o primeiro riff do resto da tua vida #4

Portugal  português

Em nove séculos de história Portugal nunca tinha vivido um momento tão dramático quanto o actual. Não, não vos falo da crise económica nem das mais recentes medidas de austeridade, falo-vos sim do “falecimento patriótico” que leva a maioria dos portugueses a renegar o próprio país sem que tenham de se levantar dos seus velhos sofás.


As bandeiras gastronómicas do nosso país, como o Vinho do Porto ou a indústria conserveira, são agora exploradas por outros países, o sol, que nos brinda o ano inteiro, é visto pelos parceiros europeus como uma forma de “ganhar bronze”. Até a cultura parece estar a morrer, visto que as tradições são vistas “como coisas do passado” e a arte não passa de uma coisa “gira”.


Posso não ter nascido nos anos 60, mas decerto que registei ao longo dos anos relatos de quem por essa altura nasceu e recorda com saudade os tempos do “Festival Eurovisão da Canção”, um fenómeno dos anos 70 e 80. O festival veio a decair a partir de 96 depois dos êxitos de Sara Tavares, com “Chamar a Música” e de Lúcia Moniz, com “O meu coração não tem cor”, não terem tido seguidores à altura.


Reveja a atuação de Sara Tavares em 1994


No próximo ano, e segundo a RTP, Portugal não vai participar no festival por “razões económicas”, situação que já se adivinhava há algum tempo e que nos deixa a sensação de que a participação deste ano pode mesmo ter sido a última. Para muitos este é até um “mal necessário”, visto que este evento era visto por muitos como um “desperdício de dinheiro”, mas não deixo de registar a minha consideração para com esta manifestação musical e cultural europeia que levou para lá das fronteiras vozes históricas, da música ligeira nacional, como as de Simone, Fernando Tordo, Carlos do Carmo ou Dulce Pontes.

Mas este exemplo não morre só e Portugal é visto pela maioria como “um país velho e de velhos”, visão que não está completamente errada, é verdade, mas que não ajuda em nada os milhões de jovens, que procuram um rumo, a identificarem-se com o seu país.


No seguimento da luta contra este “falecimento patriótico” têm-se formado grupos, associações e promotoras que têm tentado integrar manifestações culturais e artísticas em meios rurais. Só na última década o nosso país viu nascer perto de 20 novos festivais de verão. Somam-se de ano para ano e preenchem os três meses da época balnear desde o Minho até às ilhas da Madeira e dos Açores. A maioria aposta em novos universos musicais fora da comum cultura Pop/Rock e nos quais a WorldMusic faz-se ouvir e viver por recintos relvados e parques de campismo.


De facto reparo que o nosso pequeno país é cada vez mais “festivaleiro” e arrisco-me a dizer que a “onda” dos festivais promovidos em zonas rurais confere uma experiência muito mais enriquecedora do que qualquer outro festival de grandes dimensões.


Exemplo desta realidade é o festival Bons Sons, que desde 2006 “invade” gentilmente a aldeia de Cem Soldos, em Tomar, e demonstra o que de mais puro o nosso país tem para oferecer. Visitei pela primeira vez o certame este ano e pude constatar que a “SCOCS”, a associação cultural que criou o festival, tem feito um enorme trabalho. Nunca tinha visto algo idêntico, uma aldeia repleta de música, exposições, mostras gastronómicas, convívio, centenas de jovens e muito espirito de entreajuda e camaradagem. O que me permitiu passar cinco dias quase perfeitos, não fosse a grande distância do parque de campismo até ao recinto.


Para todos os gostos, o cartaz, puramente nacional, combinou o rock mais experimental dos Linda Martini e dos PAUS com o rock “dançavel” dos Capitão Fausto. Deu ainda a oportunidade aos visitantes de pode assistir a Jazz com os incríveis Maria João & Mário Laginha e aos grandes êxitos da música popular portuguesa com o “mítico” Vitorino. Impressionantes, ainda, os projectos de fusão com os A Naifa, os Pé na Terra, os ATMA e os Xícara, ao lado dos enternecedores: Mário Zambujo, Márcia, Aldina Duarte, Filho da Mãe e Nuno Prata.


Um "mix" de imagens captadas na edição deste ano do festival Bons Sons


O slogan «Vem viver a aldeia», tantas vezes repetido na página do facebook do festival, faz todo o sentido, pois quem visita o Bons Sons não vai só poder ver e ouvir música, mas também poder partilhá-la com toda a aldeia, que respira vida e convida a entrar mais alguém para beber um copo, respirar ar puro e, de facto, viver o verdadeiro espírito de uma aldeia. Para quem visitar o festival em 2014 aconselho a sopa da pedra seguida de uma “talhada” de melão, que tantas vezes me socorreu as necessidades nutritivas que passei, não fosse a minha alimentação mantida à base do típico “menu de campista”.

Entretanto, já lá vão três meses desde que vi Cem Soldos pela última vez.A aldeia deve agora sentir-se mais só sem as centenas de “festivaleiros” e curiosos que iam aparecendo por lá em Agosto. Deve agora reflectir as diferenças climatéricas do “calor acompanhado” e do “frio solitário”. Em 2014 mata-se a saudade - tão portuguesa – de um festival que só se realiza de dois em dois anos. Quanto ao festival da canção o mais certo é ouvirmos um até sempre da tradicional voz de Eulálio Clímaco.


Confira aqui o cartaz completo da última edição do Bons Sons:



A Primeira Vez


A primeira vez que ouvi um álbum como deve ser ouvido - abrir a caixa, tirar gentilmente o CD, enfiá-lo na aparelhagem, carregar play e ouvir... tinha uns doze anos. Foi aos doze que descobri muita coisa, foi aos doze que comecei a ouvir Nirvana - Mtv Unplugged, foi aos doze que descobri um Black Album numa caixa de plástico azul no sótão de um tio que já não vejo há demasiado tempo. Mas foi aos doze que viajei até casa do meu primo, em Santo André, perto de Sines e avancei até ao quarto que ele partilhava com o irmão, sem saber o que ia acontecer depois.

Lembro-me de estar cansado, com um sono leve e lembro-me que só me apetecia deitar.
Enquanto estava a andar pelo corredor pensei em procurar um CD do meu primo mais velho, na altura quase a completar duas décadas de vida e ouvi-lo enquanto descansava na cama.
Fui até ao sítio onde ele tinha umas caixas amontoadas, vasculhei os álbuns que para ali andavam, passei por Deftones, Offspring, System of a Down, coisas que ele já me tinha mostrado, mas depois vi uns quantos CD's da mesma banda, vi uns quantos CD's de Red Hot Chilli Peppers.
Que nome esquisito para dar um grupo de gente que toca música, mas estavam ali tantos que pensei que ele só podia adorar aquilo.

Escolhi o Californication como podia ter escolhido Blood Sugar Sex Magik, Mothers Milk ou Freaky Styley, mas a capa do Californication era a mais gira para um miúdo, a piscina tinha água vermelha como se fosse um céu das sete da tarde, o céu era a água da piscina. Havia naquela capa alguma coisa que me confortou. Era calma.
Abri a capa e tirei o CD sem riscá-lo, perdi uns segundos a ligar a aparelhagem e depois carreguei no play.

A primeira música era barulho a mais e rapidez a mais para o meu estado cansado e passei à frente. Não permiti a mim mesmo descobrir que «Around the World» é uma música que viria a adorar mais tarde.

Quando começou «Parallel Universe» encostei-me na cama e fechei os olhos. Não dormi, estava de olhos fechados e não estava a pensar em nada, estava só a ouvir.
As músicas foram rodando, o álbum foi continuando. Tive sorte. Durante aquela hora o mundo pareceu esquecer que eu existia, que ali no fundo do corredor havia um quarto com uma aparelhagem e um álbum chamado Californication.
«Scar Tissue», «Otherside», «Get on Top» passei à frente pela mesma razão que a «Around the World», «Californication»...

Acho que nunca conseguir descansar outra vez com aquela paz de há dez anos, e há uns dias perguntaram:
“Se tivessem de escolher um álbum, qual seria?”
Devia ter respondido Californication.


 

Crónica: Osso Vaidoso e o Sobrenatural

No passado dia 15 de Novembro dei por mim a cruzar dois "mundos". O que me aconteceu foi: durante e após ter assistido ao concerto de Osso Vaidoso no Centro Cultural de Belém, no contexto do festival Misty Fest, a minha imaginação trabalhou e fez jus ao nome do festival Misty ( em português místico). Nas costumo ter a habilidade para escrever sobre o mundo "fantástico" ou "cientifico"... mas heis o que me aconteceu: enquanto assistia ao concerto no pequeno auditório do CCB, senti um calafrio. Ora porque prestava atenção ao som "bruto"/fusco da guitarra, ora porque as palavras eram tão desiguais que se uniam e faziam-me pensar ou não se uniam e provocavam-me a admiração, ora porque a declamadora daqueles poemas portugueses dinamizava a voz consoante as palavras. Tudo me acordava.

Todos estes factores fizeram-me pensar que todas as pessoas tinham sido hipnotizadas por uma força que era controlada pelo som da guitarra que fazia as pessoas ficarem a olhar para o vazio. Certamente isto não faz sentido mas a verdade é que as pessoas ( a meu ver) olhavam para os dois músicos com ar de admiração, estranheza, especado ... Apenas se manifestavam para bater palmas... Qualquer coisa  Acho que se Ana Deus ( vocalista dos Osso Vaidoso) tivesse um pomar e trouxesse um cesto com fruta e mandasse ao público, este não reagia...! Havia terror nas palavras de Ana Deus, magia nos dedos de Alexandre Soares ( ex guitarrista dos GNR e guitarrista dos Osso Vaidoso) ou apenas um jogo de luzes na minorca sala? O que punha esta plateia boquiaberta? Parecia que este espectáculo ao vivo era fora do comum.

Quando estes "dorminhocos" sentiam que os Osso Vaidoso iam encerrar a sua actuação surgia uma voz do centro da plateia que dizia"só mais uma". Parecia que afinal o publico iria fazer jus ao preço que pagaram pelo bilhete. Quando se pode ouvir mais uma música porque não tentar gritar a mundial frase " Só mais uma"."Just one more"."Vain Yksi" em finlandês.

Terminado o concerto e palco deserto , alguém tentou desesperadamente gritar pela segunda vez ( provavelmente a mesma pessoa. O que torna o acto ainda mais pateta)" só mais uma"... Já era a segunda senhor espectador! Desejo não concedido e a chuva parava.

Assim vos tentei relatar a historia de um concerto, inicialmente sem nenhuma expectativa para mim, mas no final mostrou que posso escrever sobre um concerto, misturado com uma historia ou uma banal ideia. Gostei.





Rubrica: Este é o primeiro riff do resto da tua vida #3

"Dizedores" de palavras 


Desde que me lembro de mim que assumo uma ligação muito intima com a escrita. Sempre me senti bem entre linhas, canetas e lápis. Curiosamente era com os lápis que, no ensino primário, tinha maior ligação, mais do que não fosse por passar o tempo a “mordiscá-los”, o que irritava a professora, enlouquecia os meus pais e trazia-me um arrependimento louco. Enganem-se os que pensam que me arrependia por ouvir um ou outro sermão, pois esse sentimento de culpa surgia quando via a ponta vermelha dos tão famosos lápis “HB nº2” completamente “desfigurada”. Lembro-me de pensar que tinha exagerado nas “dentadas” e que odiava ver o meu material escolar assimilar-se a um, e desculpem-me a expressão, “barrote” de madeira, típico no uso da construção civil, mas a tentação era superior à razão e mais não se podia exigir de uma criança, não acham?

De pressa as pequenas composições, avaliadas entre maravilhosos “muito bom” ou apenas agradáveis “bom”, transformaram-se em pequenos relatos pessoais, poesia e até pequenos apontamentos aos quais ainda hoje não sei que nome atribuir.

Nos míticos tempos do Secundário, onde tudo parece fruto de uma revolução interior e de uma exaltação exterior, comecei a interessar-me por algo a que alguém chamou de “Spoken Word”, ato de interpretar e dar corpo a trechos poéticos, Odes e versos mais ensaísticos de forma muito expressiva e, quase sempre, acompanhados por trilhas sonoras responsáveis por criar cenários e ambientes sem o acrescento de qualquer imagem. Na época penso que o interesse nasceu das audições periódicas de As portas que Abril Abriu de José Carlos Ary dos Santos que, mesmo não sendo um exemplo óbvio deste movimento, demonstrava-me, com uma força abismal, as palavras de um homem com uma forma intemporal de ver o mundo.

Ary não estava só, pois a “flor da idade” trouxe-me Vítor Espadinha, que de uma forma muito própria encarou uma curta carreira musical, tendo ficado na minha memória pela participação no tema “Ouvi Dizer” de Ornatos Violeta, não só pela voz terna e escorreita mas também pelo texto que proferiu na gravação em estúdio. Adolfo Luxuria Canibal (Mão Morta), “protagonizou” um dos fenómenos mais controversos da minha história como “amante” de música. Primeiro odiei, depois estranhei e com alguma insistência, e se quiserem amadurecimento dos meus ouvidos, passei a consumir massivamente e a compreender a narrativa suja, agressiva e flamejante que suscitou em mim um certo amor pelo “ódio das coisas”.


Videoclip do tema "Novelos da Paixão"


Estávamos em 2009, ano de mutação, ano em que vivi um dos meus melhores verões enquanto “teenager” , mas em que ao mesmo tempo comecei a inteirar-me das dificuldades que o meu percurso de vida poderia vir a trazer-me. Dúvidas, projecções, incertezas, por esta altura preenchi resmas de papel de impressão com escritos, rascunhos e poesia decadentista e ao mesmo tempo comecei a recitá-la para um singelo gravador e a tentar pesquisar sobre a arte de bem dizer poesia.

Passava agora de autores intervencionistas, poetas “de há dois séculos”, e o meu “mestre” Cesário Verde, para pesquisas mais exaustivas a cerca de “Spoken Word”. Descobri Lydia Lunch, uma “anti-diva” dos anos 70/80 do movimento No wave que se dividia entre lírica sexual, “nua e crua”, submissão e opressão.
Nesta década viria ainda a destacar-se Patti Smith, herdeira dos míticos “Beatnik”, escritores anti - materialistas e de conotação democrata dos Estados Unidos da América, nas décadas de 50 e 60 e dos quais se destacou Allen Ginsberg. Patti foi uma dos responsáveis pelo movimento Protopunk, que colocou os clubes “underground” nova-iorquinos “no mapa”, assim como o histórico “Hotel Chealsea”, no qual habitaram músicos paradigmáticos como Janis Joplin, Bob Dylan, Iggy Pop e Leonard Cohen.


"Hey Joe" de Patti Smith  ao vivo (1976)

Um ano depois vim a descobrir dois novos projectos nacionais cujo aparecimento se deveu ao fim dos Da Weasel, banda de Rap – Rock nacional. Um dos vocalistas, Carlos Nobre (Pacman), veio a formar os “Dias de Raiva” e “Algodão”, dois projectos com visões algo diferentes, mas ambos com a genialidade do músico de Almada, que veio a destacar a sua faceta “Spoken” através de letras fortes, criticas e mordazes, capazes de calar qualquer voz mais púdica.

Do manifesto revoltado dos “Dias de Raiva” iniciei uma procura de novas bandas da “cena” Spoken Word e encontrei, com a ajuda de um amigo, um vídeo de uns norte-americanos que dão pelo nome de Listener* e são naturais do Arkansas. Apresentam um rock muito mais experimental, resultante do Génio de Dan Smith e Christin Nelson que de forma quase “louca” levam as suas atuações ao vivo a constar em canais de curiosidades no Youtube.

No último mês, quando menos esperava, “encontrei” uma nova banda nacional que, entretanto, tive oportunidade de assistir ao vivo e que me relançou a vontade de ouvir “coisas novas”. Osso vaidoso é um conceito muito português composto pela energia e suor de Alexandre Soares, guitarrista fundador dos GNR, e Ana Deus, cantora portuense que integrou a banda, da década de 90, Três Tristes Tigres. Responsáveis por dar vida a poemas “adormecidos” de grandes poemas portugueses, fazem-no de uma forma única, expressiva e muito teatral que dá “vaidade ao osso” representado pela sonoridade crua de uma só guitarra capaz de “blindar” as palavras a cada acorde.

Amanhã espero ouvir falar de mais alguém, alguém que não tema dizer o que algum dia escreveu ou leu num qualquer dia, seja ele bom, excelente ou menos bom, de preferência descrito da forma mais nua, fria e sem medo de ferir as susceptibilidades que o medo e a mentira gostam de instaurar.



*Veja aqui o video de "You Have Never Lived Because You Have Never Die", num concerto "intimista" dos norte-americanos Listener:




Rubrica: On the Record #1

Lana Del Rey, a boneca que já esteve em rehab

Chamar a isto 'Paraíso' é, no mínimo, estranho. A Lana (pelo menos ela) sabe porque o fez, não fosse ela a rainha das cenários (im)possíveis, dos limites (ou a falta deles), dos exageros e da ingenuidade com que os assume. Lá dentro, está uma Lana clemente, que sussurra, que quase pede desculpa, que nos adormece, no bom sentido. Parece o lado B de um vinil, o lado B de Born to Die, que já vendeu mais de 2,5 milhões de exemplares em todo o mundo.  É uma edição deluxe de quem parece que não nasceu para morrer, ou talvez não tão cedo. Pouco meses depois da estreia oficial de Elisabeth Woolridge Grant, «Ride» - o single de apresentação do EP é mais do mesmo. Uma Lana caótica mas pacífica, uma Lana que quer dizer que é louca mas que não há qualquer mal nisso, uma Lana, ainda assim, menos homemade do que no videoclip de «Video Games», o primeiro lançado no Youtube em Janeiro.

O update é evidente. Na capa anterior, aparecia de camisa branca apertada até ao pescoço, agora surge de top creme. Aquela era a tímida, esta é a arrojada. E nem de propósito, entretanto, a marca de roupa internacional H&M pegou em Lana e transformou-a na sua mais recente mascote. Está a usar o cover de «Blue Velvet» dos anos 50 para acompanhar a Lana-modelo, enquanto esta empresta a imagem à Jaguar e ao carrão F-Type. Tem agora uma produção por trás, que percebeu que a Lana pode mesmo ser algo muito rentável. A ideia de estender o álbum de estreia com outras canções que ficaram de fora do alinhamento do trabalho anterior é sempre algo de génio. Colocar Lana em versão paradise é só por si já um eufemismo. Quando a Lana nos chegou aos ouvidos, ela já vinha formatada, tanto pelas cirurgias plásticas (refutadas), como pela voz em tom baixo. Em tempos, contava que, quando ainda era míuda de karaokes ou de pubs de Brooklyn, ninguém lhe ligava nenhuma. O problema estava na voz: estava alta demais. Depois fez-se ouvir com um sussurro obrigado. Cheio de pop barroco, dizem. E um outro tanto de trip-hop e outras coisas alternativas.
  
Despertou para o que faz hoje quando o tio a ensinou a tocar guitarra e foi experimentando nomes artísticos: Sparkle Jump Queen, Phenomena ou Lizzy Grant. Não resultaram, ainda que, na última, ela tivesse um aspecto mais de girl next door, mais propenso a correr bem, sem sobressaltos. Mas não era isso que ela queria. Ou melhor, não queria de todo. Confessou que quando começou a cantar, não tinha intenções de levar as cantorias a sério. Mas que queria ser memorável, isso sim. E conseguiu. Tornou o seu segundo álbum nos dos mais vendidos de 2012 (o primeiro, em 2010, era mesmo um portfólio tosco, até no lettering, de nome Lana Del Ray a.k.a Lizzy Grant) e a música foi considerada uma das melhores do mesmo ano. Foi número um em onze países e ela é um bicho com medo do palco. As actuações ao vivo são duvidosas. Mostra um corpo pouco talhado para aquilo, de quem se segura no microfone só porque decidiu que aquele espaço em frente do tripé é para ser dela até ao fim.

É filha do empresário Rob Grant (precioso no marketing no primeiro álbum), nasceu e cresceu em Nova Iorque, EUA. Está com 26 anos, já foi estudante de metafísica e tem um passado pesado  de dependência de álcool e drogas ou de uma dependência numa pré-adolescência com problemas. As suas letras falam de alguém só, alguém que sabe que os outros não a entendem, porque sempre tiveram uma casa para viver ou um lar para estar. É uma miúda vintage, muito visionária. Escolheu o nome 'Lana Del Rey' porque queria que este fosse capaz de moldar a música desde a sua chegada. Quase que se pode confirmar isto num segundo. Inspirou-se tanto em Britney Spears e em Frank Sinatra, como em Eminem ou em Elvis Presley. Tem o glamour de uma Marilyn Monroe, o caos de uma Amy Winehouse e 'O Padrinho' (1972) e 'Beleza Americana' (1999) constam na lista dos seus filmes favoritos.  

Em entrevista à Vogue Austrália em Outubro último, confessou que já tinha dito tudo o que queria dizer e que, por isso, não sabia se iria trabalhar num novo álbum. Mas tudo isto parece falsa modéstia. A prova está no videoclipe cinematográfico de «Ride». O monólogo de uma Lana motoqueira releva que tem mais para contar, além de poses em marcas de roupa ou carros de luxo. O risco está em saber quando deve deixar de o pisar: "Sempre fui uma menina incomum, a minha mãe dizia que eu tinha uma alma camaleónica. Sem bússola moral que apontasse o norte, sem personalidade fixa. Apenas uma indecisão interior que era tão grande e tão vacilante como o oceano. Acredito na liberdade de uma estrada aberta. Acredito na bondade de estranhos. E quando estou em guerra comigo mesmo, caminho. Simplesmente caminho." **

Born to Die - The Paradise Edition (EP)* foi lançado hoje, dia 12 de Novembro. E  é o motivo para mais uma rubrica do Off. As estórias dos discos, dos seus autores e dos novos sons vão ser contados aqui. E só quando eles quiserem, oficialmente.

1. Ride
2. American
3. Cola (Pussy)
4. Body Electric
5. Blue Velvet
6. Gods & Monsters
7. Yayo
8. Bel Air
9. Burning Desire (apenas na versão exclusiva iTunes)

*A versão standard reeditada inclui os dois CDs do multiplatinado Born to Die e a versão SuperDeluxe acrescenta um terceiro álbum de remisturas, um DVD com videoclips, um vinil de 7 do tema «Blue Velvet» e quatro gravuras.

** I was always an unsual girl, my mother told me I had a chameleon soul. No moral compass pointing due north, no fixed personality. Just an inner indecisiveness that was as wide and as wavering as the ocean. I believe in the freedom of an open road. I believe in the kindness of strangers. And when I'm at a war with myself  - I ride. I just ride." (na versão original)



Rubrica: Este é o primeiro riff do resto da tua vida #2

Adeus Leopoldina, olá festivais!


Na última semana ocorreram situações que me deixaram a pensar, mas nenhuma delas parecia ter sumo suficiente para dar inicio a mais uma crónica, até que uma sucessão de acontecimentos me fez construir analogias que quis trazer para a minha rubrica "domingueira".

Obama foi reeleito, o que por si só, na minha opinião, já é uma boa notícia, mas o que ninguém sabe é que enquanto a minha rua “adormecia” a ver a vitória de Obama a ser lentamente consumada  o café mais próximo da minha casa, estava, em simultâneo, a ser assaltado. Muito bem, o café foi assaltado, os donos tiveram um enorme prejuízo e eu tive de beber café 500 metros mais longe de casa, mas então e a crónica?

Graças ao assalto consegui finalmente encontrar um fio condutor para a minha crónica visto que no estabelecimento, no qual não costumo beber café, vi o anúncio de natal de uma cadeia de supermercados, no qual a mascote, chamada “Pópóta”, apresentava uma versão muito estranha do tema «Party Rock Anthem» dos LMFO. Para aumentar ainda mais o grau de “estranheza” reparei que, para além da versão da música, a mascote apresentava trajes menores num anúncio concebido para crianças, o que me fez reflectir.

É triste, meus senhores e senhoras, nascidos nas décadas de 80 e 90, mas a Leopoldina, aquela ave grande, sorridente, idêntica ao “Poupas” da Rua Sésamo, e cuja música nunca vamos esquecer, foi substituída por um animal que pesa toneladas, come até 68 quilos de erva por dia e que tem uma mordedela superior à de um leão! Mas não foi só o animal que mudou, o mundo também e hoje vemos crianças muito mais interessadas em “coisas de adultos”, tendência que as campanhas comerciais parecem estar a aproveitar da melhor forma. Numa época onde o natal parece estar em risco por força das últimas medidas de austeridade, reparei que até os adultos são “seduzidos” para os anúncios que antigamente eram apenas para crianças. As grandes superfícies comerciais não estão sós, visto que este ano reparei numa mudança que não deixei de relacionar com estas verdadeiras “manobras de marketing”.

Desde que me lembro do festival «Optimus Alive», que este me conseguiu cativar quase sempre através dos cartazes que foi apresentando ao longo dos anos. Lembro-me de que em 2009, após duas edições, estava “em pulgas” para saber quem ia pisar os três palcos do festival, e em Janeiro, apenas existiam especulações em torno da visita dos norte-americanos Metallica, que acabaram depois por ser confirmados para o dia 9 de Julho no Passeio Marítimo de Algés. Hoje reparo que entre Outubro e Novembro, de 2012,  já foram confirmados três nomes para atuar no mesmo festival no próximo ano. É apenas obra do acaso? Não me parece, mesmo porque não se confirmam, com 8 meses de antecedência, nomes como Depeche Mode, Kings of Leon, e Two Door Cinema Club por obra de um acaso.



O Optimus Alive é um dos festivais mais "invadidos" em Portugal desde 2007.


Na minha opinião a forma como a promotora do evento, Everything is new, lançou estes autênticos cabeça de cartaz pode muito bem configurar uma sugestão de “oferta natalícia” sob forma de passe dos três dias de festival. As três bandas abrangem vários tipos de público, e são, ao mesmo tempo, transversais a qualquer faixa etária. Kings of Leon: tornaram-se uma das bandas mais ouvidas pelos portugueses nos últimos, muito por força do êxito de «Use Somebody», single do quarto álbum da banda. Já os Depeche Mode, autores de «Enjoy the Silence», são já um fenómeno de longa data em terras lusas. Com um público menos abrangente surgem os Two Door Cinema Club, banda que, para muitos, deu um dos melhores concertos do festival Sudoeste TMN no passado mês de agosto.

Arrisco-me a dizer que muitos “festivaleiros” vão avançar para a compra do passe já no natal, e com isto passar o próximo mês a ”contar trocos”, visto que numa época como esta em que as prendas vão escassear, todos os cêntimos serão determinantes. Vou até mais longe e aposto que, este ano, os visitantes abaixo dos 16 anos vão crescer em número, não fosse essa uma realidade cada vez mais verificada nos festivais de verão portugueses. Nestes casos podemos até imaginar o duro golpe que será entregar à “senhora da bilheteira” o dinheiro amealhado durante todo o ano, ou até mesmo a revolta em aniquilar o tão estimado “porquinho rosa”, que normalmente até é complicado de partir.

Quem sabe, com o avançar dos tempos e das vontades possa ser possível que, daqui a alguns anos, em vez de observarmos uma criança acordar às 7 da manhã, a um Domingo, para ver anúncios da Playmobil ou da Rita Gatinha/ Caminha, vamos sim encontrar a mesma criança, a acordar à mesma hora, para ver anúncios dos principais festivais de verão nacionais. Talvez a reação as estes "novos anúncios" pudesse ser idêntica à do passado com a típica frase, neste caso, ligeiramente alterada: "Pai, mãe, quero o bilhete para este festival!Vá lá!". Esta ideia pode parecer menos anedótica se virmos que "miúdos" de 12 e 13 anos já frequentam festivais como o Rock in Rio e o Alive sem acompanhamento dos pais. É só subtrair três ou quatro anos e encontramos a idade dos anúncios matutinos.Dá que pensar não dá?