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E se a música deles também fosse made in Camões?

"Como vi dançar no Zimbabué/Quero também contigo gingar/Uma dança nova/Mistura de Semba com Samba/De Mambo com Rumba/Tua mão da minha/E a minha na tua". A letra de 'Balancê', música retirada do álbum homónimo de Sara Tavares de 2005, faria ainda vez mais sentido se tivesse aparecido nos anos 90. O vaivém das gentes e dos ritmos começou com o 'Nadar' dos Black Company ou com o 'Dançar no Huambo' dos Kussondolola, e o fenómeno ou o processo mais que natural continou com Sam The Kid a samplar Carlos do Carmo ou com os Buraka Som Sistema a pegar num kuduro de Luanda.
Se o fado nasceu de uma mistura de africanidade e de outros sons vindos da terra de Vera Cruz, as mornas de Celina Pereira pouco se afastam de uma Mariza em «Meu Fado Meu». Se o Duo Ouro Negro, nos anos 60, foi pioneiro na mistura de músicas do mundo com semba, folk, samba e outros ritmos tradicionais numa só faixa, Caetano Veloso foi o responsável pelo movimento Tropicália, com Chico Buarque a reboque e Carlos Paredes na guitarra portuguesa, com «Verdes Anos».
Mas se as influências do que antigamente se fazia na música portuguesa ou na música lusfónona (para evitar constrangimentos ou definições deficitárias) estão nas opressões criadas por ditaduras dos anos 60 ou por movimentos libertadores posteriores, já a tocar nos anos 80, representadas por José Afonso com 'Milho Verde' ou por um revivalismo de uns Heróis do Mar e de António Variações, hoje as coisas não têm uma figura muito diferente.
Depois dos pioneiros Tito Paris, Danny Silva ou o incontornável Barceló de Carvalho (vulgo Bonga), em Angola, o hip-hop continua a ser uma forma de música de intervenção, assim como o kuduro o é em estado puro, não sendo sequer um estilo de música. Ao lado ocidente (diga-se, europeu), este chegou sem este lado combativo urbano e foi encarado como um ritmo, de forma muito simples como esta definição, capaz de moldar a música lusófona e aquilo que ela é capaz de incorporar.
Com descargas pelo mundo inteiro, atravessando o dubstep, o rap, o reggae, nos anos 90, a música lusófona passou a ser uma música de intervenção. Os Kussondolola faziam desaparecer a postura monopolista do pop-rock de Rui Veloso, GNR ou Xutos e Pontapés, abrindo espaço para que Cool Hipnoise e Mind Da Gap saíssem dos seus subúrbios e entrassem em listas de favoritos ou em Top+.
"Adoro quando te deixas levar assim/Fechas os olhos e danças só para mim/Uma dança tua/Mistura de não vem que não tem/Com um sorriso porém que me diz que o teu desdém/É só a manhã de alguém/que diz que vai mas que vem/Me engana que eu gosto". Mas a letra de Sara Tavares continua a querer dizer-nos que a influência entre os continentes lusófonos ainda não é tão livre quanto pode parecer. A própria Sara tem a holandesa World Connection como sua editora, assim como a sua amiga Mariza – uma das artistas portuguesas (nascida em Moçambique) mais bem conceituadas do mundo – que também é representada pela britânica Universal Music. Em poucas palavras, não se aposta verdadeiramente em música interna em Portugal. São os outros que precisam de fazer o nosso trabalho de casa. Carlos do Carmo diz que continuamos complexados. Que os efeitos de uma era colonial ainda não desapareceram e que, até que assim seja, a música vai ser o que é: cheia de Melo D, Pac Man, António Zambujos ou Orelha Negra, mais ou menos reconhecidos, seja lá de onde for que vem a inspiração. Ou de um Bob Marley de Nile Mille ou de um Seu Jorge, do Rio de Janeiro.
No entretanto, a história repete-se. O som português de hoje é um som de protesto pelo ontem e revolução pelo amanhã. Os antigos dizem que a música de África é muito boa, mas é um regresso ao passado. Mas as novas gerações começam a deixar de sentir isso da mesma forma. E a Sara continua a ter razão. Quem acredita que a música portuguesa não se balança, então é melhor nem tentar perceber se gosta do que ouve dela. No mundo inteiro. "Balancê ye/Balança ya/ Swing para lá/Swing para cá ye/Swing no pé/Senão chega p´ra lá ye"


Lusofonia: Um encontro de identidades


Falar de lusofonia não é só falar sobre nós, povo português, mas também sobre quem fala e sente o português. A musica lusófona é a musica cantada por todos aqueles que dominam a língua portuguesa, e têm gosto em o fazer.
A musica cantada em português é e continuará a ser explorada até ao mais ínfimo pormenor, vão sendo acrescentadas ideias, novos ritmos, novas paixões. Musica em Angola, musica em Cabo Verde, toda ela expressa em português vale o que vale.
Os artistas de países africanos introduzem nos seus estilos musicais a língua portuguesa, sem nunca descurar dos ritmos próprios das suas vivências. Os seus ritmos e melodias são facilmente colocados numa panela e misturados com os cantares e dizeres do povo português, e é daí que sai uma espécie de nova melodia.
A música lusófona é, conforme já referi, e achando uma ideia importante, ainda um mundo em constante desenvolvimento, é certo, pois cada dia vão surgindo novos ritmos, novas formas de se fazer boa música, esta cantada em bom português.
Fala-se de saudade, da convivência. Canta-se e expressa-se o bom português em forma de Reggae, Hip Hop, Kuduru, Samba, e outras coisas mais. Simplificando, somos uma comunidade unida, que trabalha no mesmo sentido: o de levar a música cantada em português além-fronteiras. E parece que estamos a ter sucesso nesta jornada musical.

Lusofonia - um elo no tempo e no espaço


Cada ser humano é único, produto de combinações de genes diferentes. Assim é a música de cada país. Produto das mais variadas influências, culturas, sons e ainda elementos físicos. A música é uma ferramenta de comunicação, tal como a fala ou os gestos e é através dela que se expressam sensações, que se descreve o que nos rodeia ou até que falamos sobre o quotidiano. Se o folk dos Estados Unidos fala de comboios e do trabalho no campo, o fado de Portugal fala do mar, das partidas, das chegadas e da saudade. Mesmo os instrumentais têm as suas particularidades.

Mas tal como a música americana não se resume ao folk, a música portuguesa também não se resume ao fado. Mais não seja porque o povo português é um povo viajante, um povo conquistador. Quisémos descobrir o mundo e foi o que fizémos. Navegámos por “mares nunca antes navegados”, mais recentemente, acolhemos os que apreciaram a nossa hospitalidade e deixámos partir aqueles que ambicionavam uma vida melhor. Mantivémos tradições e adoptámos novos hábitos. Quer no passado, quer no presente, o contacto com novas civilizações mudou a nossa maneira de viver e a nossa visão do mundo.
As colónias que conquistámos e libertámos passaram para nós um legado e uma herança que não podemos ignorar. As nossas raízes e origens não se limitam ao território que vem desde o Minho até ao Algarve. A presença de Portugal no Brasil e em África trouxe influências vincadas para a música que se faz nos dias de hoje. A língua portuguesa, ainda que tenha as suas diferenças nos três locais, em conjunto com a conviviência histórica, é o que nos une. Uma língua comum que se expressa em sonoridades bem diferentes.

Nos anos 70, artistas como Zeca Afonso e Fausto tentaram fazer a fusão de todas estas influências, mas foram precisos 20 anos para que esta relação entre Portugal, África e o Brasil se tornasse sólida e forte. O rap, o hip-hop, o reggae, o funk e o kuduro “de Portugal” fizeram a ponte entre estes três territórios e contribuiram para que as barreiras viessem a desvanecer gradualmente.

Existem portugueses espalhados um pouco por todo o mundo e existe um pouco de todo o mundo dentro deste nosso Portugal. A música lusófona é um pequeno grande mundo a ser explorado, é parte da nossa história, da nossa cultura e da nossa identidade.

Crioulo, fado e saudade


Ninguém o pode negar:  A língua portuguesa está viva, recomenda-se e festeja-se a cada ano que passa. Celebrando o encontro entre sabores, cheiros e ritmos de quatro continentes.
Foi há mais de cinco séculos que os marinheiros cruzaram os oceanos, como uma melodia cruza uma pauta, e domaram um globo inteiro só para descobrir um novo mundo. Hoje as ondas, sonoras, partilham ritmos de África, Brasil, com este nosso cantinho ocidental.

De um rectângulo recortado, pequeno e encaixado numa península a sul da Europa, Portugal conseguiu tornar-se num império, que ainda hoje sobrevive. Já não são reis, nobres e senhores que o demandam, nem muito menos punhos firmes da ditadura e dos arsenais, mas sim uma palavra: A lusofonia.

A saudade é ponto de partida, seguida pelo pranto do fadista, do choro da guitarra e do ritmo do adufe, ser lusófono é ser preto, branco, mulato; tocar guitarra portuguesa e dançar kuduro. Pode até parecer estranho e, para os mais nacionalistas, castigar a identidade de um povo mas a verdade é que os musicólogos, historiadores e críticos da área assumem que não existe uma música puramente portuguesa.

Assim como os negros do Blues e do Folk nos Estados Unidos  influenciaram a música daquele pais usando o choro e as lamurias dos seus avós escravos, o fado também é um produto da experiência musical dos hoje chamados PALOP, assim  como de todas as trocas mercantis feitas entre países de todo o mundo. É evidente que Amália Rodrigues veio a influenciar o fado e a torná-lo no que hoje ouvimos, pois tornou-o poético e urbano, mas até ela  sofreu influências dos “ares” franceses durante o seu processo de criação.

Nesta mescla cultural o fado não está só, visto que até o próprio folclore nacional está crivado de “estilhaços” musicais dos nossos semelhantes lusófonos. Já Zeca Afonso o dizia por vezes quando tocava temas como Galinhas do Mato, que gozavam da experiência interventiva do autor português aliada a ritmos populares do interior do país e de Africa. Seguem-se nomes como Sara Tavares, Mariza ou Ana Moura que neste momento unem o melhor do mundo lusófono as experiências da pop e do fado.

Mas para que ouvíssemos estes nomes, muito teve de ser feito, visto que apesar do povo português estar aberto à imigração e às trocas culturais, residiram durante anos, nas mentalidades, um certo cepticismo em relação à música africana e brasileira. Durante os anos 60 a 80, a música lusófona sobreviveu muito à base dos canta-autores brasileiros Caetano Veloso ou Chico Buarque que assumiram uma grande importância na inserção de um novo folego musical no nosso país, acompanhado de sotaques cariocas e crioulos.

Os anos 80 deram a Portugal o boom discográfico que o país de camões já precisara há muito. Para além de projectos com olhares mais anglo-saxónicos, como os Táxi, os Heróis do Mar ou os GNR, surgiram nomes que viriam a unir a reconstruir a lusofonia das canções. António Variações ou a Banda do Casaco recuperavam, na época, as “malhas” beirãs, transmontanas e minhotas, muitas delas idênticas às de Bonga, Waldemar Bastos ou até mesmo Danny Silva. A verdade é que este novo olhar despertou a vontade de ouvir “novos” ritmos que abriram a porta a Daniela Mercury, Lura, Tito Paris, entre muitos outros. Por cá o hip hop começou a penetrar a pouco e pouco. Exemplo disso é a compilação “Rapública”, de onde surgiram nomes como “Black Company” que influenciaram o trabalho de dezenas de mc’s nacionais, entre eles Sam The Kid, Melo D, Valete ou Nigga Poison.

Mas este capítulo das influências dar-nos-ia pano para mangas, visto que o hip hop é como uma máquina do tempo que vai recuperando os velhos êxitos adormecidos. Cool Hipnoise deram nova vida à Bossa Nova, mais recentemente os Buraka Som Sistema deram electricidade ao revoltado e reivindicativo kuduro Angolano e até o Reggae foi visitado pelos portugueses através dos “históricos” Kussondulola, dos Terrakota ou dos Mercado Negro.

A música tem este poder de falar por si mesma, de se poder tornar um código linguarejo que remistura lembranças, pessoas, sentimentos, povos e de novo a saudade. A mesma de Cesária Évora, cabo-verdiana, a mesma dos Macacos do Chinês, Amadorenses, a mesma de dez milhões de portugueses que ao unirem a força das línguas, musical e verbal, com os seus “irmãos” lusófonos, dariam ao mundo muito mais do que apenas um buraco orçamental.  


O conceito de música portuguesa


Assim como Zeca Afonso misturou à sua música de intervenção toda a influência dos ritmos africanos que adquiriu na sua estadia em Moçambique e Angola, o hip hop português sofreu também ele uma miscigenação com a cultura africana. Corria o ano de 2000 quando eu, agarrado ao clássico The Marshall Mathers Lp do Eminem, dei de caras com o hip hop português a sério pela primeira vez. Já tinha em tempos escutado alguns êxitos radiofónicos de rap como o «Nadar» dos Black Company e alguns temas do 3º Capítulo dos Da Weasel. Mas foi o álbum Introdução a Uma Vida Banal - O Manual, que me atrelou ao hip hop nacional durante largos anos. 

Os Da Weasel levaram-me a mergulhar a fundo no hip hop lusitano e, consequentemente, fui descobrindo artistas como Mind da Gap, Sam The Kid e Chullage, entre outros. Este último, em especial, conseguiu fazer algo que até hoje é, a meu ver, um verdadeiro exercício de mistura entre a cultura portuguesa e a cabo-verdiana. Ao ouvir pela primeira vez o Rapresálias, constatei que Chullage manteve a preocupação não só de fazer a sua música, mas também de a cantar em ambos os idiomas de forma a representar ao máximo as duas culturas. Ao escutar atentamente o álbum é impossível ser-se português e não sentir a curiosidade pela cultura cabo-verdiana e vice-versa. O próprio levanta o véu sobre vários costumes e tradições de Cabo Verde, nas suas letras, e ainda inclui, em alguns temas, instrumentos e ritmos africanos. No disco que se seguiu, Chullage conseguiu frisar ainda mais essa necessidade de cruzamento. Rapensar, apesar de não ser o melhor álbum do artista em questão, é aquele que, na minha opinião, melhor retrata toda esta vontade de Chullage atingir um ponto de fusão entre a música portuguesa e a cabo-verdiana.

Talvez esta seja uma das formas de definir o conceito de música portuguesa: uma mistura de influências adquiridas pelas diversas interferências que sofremos na nossa cultura, derivadas da nossa vontade de descobrir novas terras, novos povos, novas vivências e, consequentemente, nova música.

Crítica a disco

ZZ Top
La Futura(2012)
American Recordings/Universal Republic

Quando se fala em blues rock é importante referir os ZZ Top, banda que já figura no Rock and Roll Hall of Fame e que justifica esse estatuto com o novo La Futura.
Solos e guitarradas fazem abanar o "capacete" dos mortais, afirmando-se este álbum como um exercício dançável e apetecível de cantar. O estado mais puro do rock da "velha escola" continua a cativar os novos, os velhos ou até os que acompanham o blues rock desde 69, quando a banda se estreou. É de louvar que continuem juntos, são verdadeiros "sobreviventes". James Harman é um dos convidados, toca harmónica e, claro, dá um ar mais bluesy, mais southern ao disco. Grande forma de acabar o ano de 2012, este novo trabalho dos ZZ Top.


Alex D'Alva Teixeira em entrevista


"Um gajo que faz cenas fixes"
Fotografia de Vera Marmelo

É com esta modéstia e talvez ingenuidade que Alex D’Alva Teixeira se descreve. Tem 22 anos, vive na Moita e a sua história dava um filme, não, uma série! “Se pudessem agarrar na história teria de ser contada em forma de websérie daquelas de baixo orçamento”. O talento e a sorte de Alex levaram-no até ao patamar onde está agora: com um single a passar nas rádios, um EP lançado e um álbum a caminho.

Podemos dizer que o Alex tem duas paixões: O design e a música. A primeira foi uma paixão que foi desenvolvendo, enquanto que a segunda sempre fez parte de quem ele é. “Tudo começou quando andava no infantário. Ofereceram-me um gravador de cassetes no Natal e o que eu fazia era inventar músicas, juntando sons que gravava. Ainda tenho essas cassetes.”
Apesar de, na altura, se descrever como irritante foi essa insistência, demonstrada nesses primeiros passos, que o levou a investir na música, sempre muito encorajado pelos seus pais, que achavam muita piada quando o Alex “ia brincar às bandas”.

A brincadeira tornou-se séria quando o Alex começou a lançar as suas músicas na internet e a ver que estas tinham uma visibilidade maior do que a esperada, razão pela qual tem uma forte presença nas redes sociais e valoriza muito este meio para a divulgação do seu trabalho. “No ano passado, no Natal, gravei uma mixtape, que meti online para que todos pudessem fazer o download e isso acabou por chegar a mais pessoas do que o que eu esperava. Acabei por ficar surpreendido com o que fiz.”

Ben Monteiro e Vitor Azevedo tocam com o Alex na banda à qual ele empresta o nome. Conheceram o Alex num festival de bandas que o próprio organizou e na altura pertenciam ambos a bandas das quais ele gostava. Ambos concordam que esta história do Alex como underdog que acaba por vingar não é só sorte nem só talento, mas também vontade de fazer e de “se mexer”. “Eu conheço o Alex porque ele se mexeu, porque ele organizou um festival e convidou a minha banda para lá tocar, o que me fez conhece-lo e, depois de vários processos e contactos, estamos aqui hoje.”, diz Ben Monteiro, realçando a importância desta proatividade que é comum aos três elementos.

Assinou com a FlorCaveira e lançou o EP Não é um projeto, em Junho. “O título do EP é uma piada. Nós fomos tocar à final do Termómetro, no Porto e no dia seguinte tínhamos vários blogs a escrever sobre o projeto Alex D’Alva Teixeira então foi um bocado confuso porque na altura éramos quatro pessoas em cima de um palco e é o meu nome que aparece. Então resolvemos fazer essa piada, o Alex não é um projeto, é uma pessoa, é um rapaz”.

Uma das características que melhor define Alex D’Alva Teixeira, enquanto pessoa, é a sua versatilidade, sendo que consegue ser influenciado por bandas dos mais variados géneros, como Underoath ou Bloc Party, por exemplo. Ben confessa que a música que fazem já começa a ter um bocadinho de todos e que o seu objetivo é ajudar a descobrir o Alex no meio de todas as suas mais variadas influências. Como? Não impondo limites, libertando-se de tudo.“Uma coisa que percebemos rapidamente é que o Alex ouve muita coisa, faz muita coisa e produz muita coisa diferente. Não fazia sentido, de maneira nenhuma, estar a restringir isso”. “Uma das coisas engraçadas quando incorporas a ideia do não estar preso a nada é que te podes divertir muito ao fazer música das mais variadas formas, mudando os estilos das canções”, completa Vitor.

Alex, Vitor e Ben querem ser conhecidos por esta versatilidade e imprevisibilidade. Não falam do disco que vão lançar, apenas dizem que é um disco muito heterogéneo.

Agora que estamos prestes a entrar num novo ano, o Alex faz o balanço do que passou e considera-se sortudo. “Em 2012 aconteceu tudo: é o ano em que sai o EP, em que consegui chegar até mais pessoas e até mesmo o ano no qual a minha familia consegue dar algum crédito aquilo que eu faço.”. Diz que no futuro o seu objetivo é ser criativo e ser distinguido como um artista, não só um músico ou um designer. “Acho interessantes pessoas como o Salvador Dalí, por exemplo. Ele fazia tanta coisa diferente. É certo que é mais conhecido pela pintura, mas fazia tanto”. Confessa que gostava de experimentar ilustração e investir na área audiovisual, embora, de momento, se queira focar ao máximo em evoluir musicalmente. “Eu acho que a minha vida seria incompleta se só pudesse fazer uma coisa.”, conclui.

Crítica ao álbum La Futura dos ZZ Top

ZZ Top
La Futura
American Recordings/Universal Republic
4/5


La Futura é o 15º álbum dos norte-americanos ZZ TOP e apresenta-se como uma viagem aos anos 60 e ao revivalismo de bandas como The Rolling Stones e The Animals, com alguma da sujidade das guitarras da altura a ser evidenciada. Ao longo dos dez temas que compõem esta obra é possível extrair o groove de artistas como BB King e alguma da sonoridade dos solos de Stevie Ray Vaughan. A cadência do blues-rock vem destacada em temas como «Heartache In Blue» e «Over You», esta última a deixar a cru o peso e a tristeza que integram a identidade do blues. A voz, por sua vez, vai buscar inspiração a Howlin' Wolf e ao seu estilo abrasivo. «Flyin' High'» é excepção à regra neste álbum, aparecendo um pouco perdida, retirando-nos deste sonho azul e transportando-nos momentaneamente para o hard-rock dos anos 70, para depois nos voltar a deitar confortáveis no leito do blues-rock até ao final do álbum. 

Crítica de Disco: La Futura - ZZ Top


ZZ Top
La Futura
American 2012
Nota: 4/5


Em plena época natalícia, La Futura é uma prenda para os fãs dos ZZ Top, principalmente porque interrompe um longo silêncio, após quase dez anos de “descanso”. Velhos são os trapos e os três músicos sexagenários continuam a apresentar o arrojo de outros tempos. Apesar de alguns momentos menos interessantes, destaque para os riffs poderosos dos primeiros dois temas,  “I Gotsta Get Paid” e “Charteuse” e, já a meio do álbum, “Heartache In Blue”, que reforça a ligação, dos naturais do Texas com o blues, através dos solos partilhados entre guitarra e harmónica. Uma lição para os novos “putos” do rock que certamente vão tirar notas deste álbum e tentar seguir o swing e a mestria das execuções de “Consumption” e “I Don’t Wanna Lose, Lose, You” sem perda de intensidade através de “Over You” ou “It’s Too Esy Mañana”.

Crítica de Disco: La Fortuna dos ZZ Top


ZZ Top
La Futura
American Recordings
4/5

As barbas voltaram, maiores do que nunca.

Este álbum é o passado autêntico dos ZZ Top, sem esquecer a tecnologia de que agora dispõem. Não são audíveis grandes diferenças comparativamente com os seus outros projectos, mas isso não é necessariamente uma coisa má. As guitarradas de Billy Gibbons, em conjunto com a sua voz algo monótona, a bateria persistente de Frank  Beard (que, ironicamente, é o único que se apresenta sem barba) e o baixo de Dusty Hill casam-se perfeitamente neste álbum. 

Apesar dos "desvios" dos anos 80, ninguém espera deles algo puramente eletrónico - apesar "Gotsta Get Paid" ser uma versão de um tema de DJ DMD - ou intrinsecamente soul. Encontraram o seu caminho há muito e, se há algo que este álbum revela, é que têm de facto muita alma - só que virada para um rock que há 9 anos não se fazia ouvir.  Os ZZ Top merecem, de facto, "get paid".

Crítica de Disco: ZZ Top, La Futura


ZZ Top
La Futura (2012)
American Recordings
4/5


Podemos dizer que a consolidação de uma banda passa por várias fases. A fase inicial, na qual tem de lançar-se, a fase experimental, de testar novos sons, e a fase final, de regressar às suas origens e provar a sua identidade. É nesta última que encontramos os ZZ Top e o seu La Futura, o 15º álbum de estúdio do trio do Texas. Nove anos separam este álbum do seu antecessor Mescalero, o último gravado com a RCA Records, aquela que foi a editora da banda durante 10 anos. 
A quebra do vínculo deu aos ZZ Top a liberdade de fazer o que sabem melhor, música rock com muita guitarra, voz rouca e um tempero do sul. Faixas como «Chantreuse» e «Heartache in Blue» ilustram bem isto. 
La Futura junta o passado e o presente dos ZZ Top num conjunto de músicas que não resistimos a acompanhar batendo o pé no chão.

Alex D'Alva Teixeira e o swag de um falso aristocrata


Era dia de concerto dos The Black Keys e Maccabees na outra ponta de cidade. Ele não estava no Pavilhão Atlântico, com muita pena dele, e antes contava-nos a sua história, junto ao rio Tejo. É o chamado ‘novo artista’. Emergiu dos meandros da internet e redes sociais, mas também por culpa da sorte e outro tanto de talento. Alex D’Alva Teixeira está longe de ser um nome artístico fabricado. É um nome real de família (e não de uma família real), tem tanto de imponente como ele e está cheio de punk.

“Há muito pouco tempo a minha mãe ouviu a minha música na rádio e ficou toda contente. Quando cheguei a casa disse-me: ‘’Ah, que pena, há tanto tempo que ‘tá fazendo música e só agora é que ‘tá fazendo sucesso.”, contava Alex, entre risos e num sotaque brasileiro, para uma imitação perfeita do que a mãe lhe dissera há uns dias. Sem ressentimentos, Alex percebe que os timings não estão contra ele, bem pelo contrário. Em Fevereiro do ano passado conquistou o segundo lugar na 17ª edição do Festival Termómetro, no Porto. O festival, preparado para descobrir novas revelações musicais em Portugal, foi o mote para o que lhe está a acontecer agora.

Foi considerado um dos Novos Talentos Fnac 2012, cuja compilação tem o seu tema «Diz-me (Design)» e quatro meses depois a editora FlorCaveira lançava o seu EP Não É Um Projecto. O nome do trabalho tem um tira-teimas incorporado. Logo que começou a ficar conhecido no meio cibernético-artístico, começou também a confusão. Uns diziam que ele era o mentor de uma coisa, outros que ele era o protagonista dessa mesma coisa. “No dia seguinte ao Termómetro, tínhamos vários blogues a escrever sobre o festival. Na altura, éramos quatro pessoas em cima de um palco e é o meu nome que aparece. O Alex não é um projecto, é uma pessoa, um rapaz. O título do EP foi uma piada”, explica Alex.

Com a definição arrumada na negativa, Alex aparece com o single de apresentação «3tempos». “Toda a gente diz que aquilo é Bloc Party português”, adianta, desde logo, sobre aquilo que anda a mostrar. “Eu queria imitá-los. Ouvi aquilo a primeira vez e nunca pensei que fosse possível fazer rock e pôr as pessoas a dançar.”, confessa. Mas a banda britânica não é a única influência de Alex. No seu blogue oficial, há posts que denunciam alguém profundamente metamorfoseado por The Killers, Radiohead, Gossip, Panic! At The Disco ou os Yeah Yeah Yeahs, e é o próprio que confessa que, se não fossem bandas como estas, ele não estaria a fazer o que faz hoje.

Só que houve quem achasse que eram influências a mais, como Ben Monteiro, dos Triplet, e Vítor Hugo Azevedo, guitarrista dos Iconoclasts e detentor da recente editora Corvo Records. São uma espécie de protectores de Alex. Têm cerca de dez anos de diferença de idades em relação ao miúdo Alex (de 22 anos) e ambos integraram bandas de quem ele era fã. Vieram com o Alex para a nossa entrevista e acabaram por explicar o que aquele tem de tão especial. Corria o ano de 2009 quando a primeira banda do Alex, Cast a Fire (onde era baixista e formada depois do miúdo ter visto a banda de Ben ao vivo em 2001) teve uma demo produzida pelo próprio Ben. Aquela acabou por chegar ao fim e Ben considerava Alex um “desperdício”. “Ele demonstra uma elasticidade fora do comum, mas não é nenhum abençoado”, esclarece Ben. “E o que faço é assumir o papel de produtor à antiga que encontra o talento e fazer com que ele se descubra no meio de todas as influências”, completa.

O disco de estreia, produzido por Ben, é assim o resultado de um filtro. Mas para Alex, tudo ainda parece muito turvo: “Cada vez que experimento qualquer coisa nova, dou por mim a descobrir que antes pensava que nunca a iria fazer”. “Não sei se sou merecedor de alguma coisa, mas quando paro para pensar no que aconteceu este ano, chego à conclusão de que sou um miúdo com muita sorte”, confessa Alex. A sorte chegou-lhe quando, depois de organizar um festival, Ben e Vítor ofereceram-se para tocar todas as músicas do seu EP. “Tive um bom karma”, conclui Alex. 

alex d'alva teixeira/myspace

“Um gajo que faz cenas fixes”
Mas apesar de se considerar versátil e multidisciplinado (palavras dele), as expectativas que depositam nele causam-lhe alguns calafrios e até tem medo de desiludir os amigos da banda ou o público que o ouve. “Não é das piores coisas que existem na vida, mas para mim não é muito fixe. Não lido muito bem com isso”, explica Alex. Ainda que possa sentir vergonha de mostrar matéria nova ao seu produtor, pior é quando se lembra do que fazia antes. “Sempre que começo a sentir-me confiante e a achar que sou o maior, vou ouvir as minhas primeiras canções. São de fugir”, conta descontraído.

E hoje, a internet e as redes sociais facilitam a visibilidade que antes estava guardada nas tais cassetes. “Não sei se elas [as plataformas digitais] são essenciais, mas têm um papel importante. Nos anos 90, quando queria ouvir música nova, tinha de estar muito atento à rádio e à televisão. Agora a internet dá-me uma escolha muito mais abrangente” analisa Alex. “Como músico, é muito mais fácil fazer chegar o meu trabalho a outras pessoas”, acrescentam contando que quando colocou online uma mixtape apenas pensou que esta chegasse a meia dúzia de pessoas.

Mas a confiança (ou a timidez disfarçada) de Alex não é uma coisa nova. Tudo começou no infantário. “Num Natal, ofereceram-me um gravador de cassetes e eu inventava coisas. Era uma criança muito irritante. Não sei como os meus pais tinham paciência”, comenta Alex com um ar perplexo. Foi ainda miúdo de igreja, mas nunca experimentou canto lírico. O estilo que gosta menos é a kizomba, mas não descarta nada: “Quando era mais novo não gostava nada de hip-hop e esta semana só ouvi isso. Quem sabe um dia até possa ser o maior fã de kizomba e faço um disco só disso”.

Entre Michael Jackson e Prince, o primeiro é o artista de eleição, sem grandes dúvidas, mas quem dera a Alex conseguir fazer os falsetes do músico e dançarino de Minneapolis. As Spice Girls são das melhores coisinhas pop que já consumiu e gosta de Design. É quase como se tivesse dois amores e não soubesse de qual gosta mais, ou então sabe, não fosse ele o típico puto que “pegava um objecto qualquer que se parecesse com um microfone e dizia à mãe que queria ser cantor”.

Ainda assim, Alex tem uma impaciência saudável: “A minha vida seria incompleta se só pudesse fazer uma coisa”. Quer antes ser como um Salvador Dalí, porque aquele “fazia tanta coisa diferente”. Por isso, quando lhe perguntamos se gostava de experimentar outras áreas, responde sem hesitações: “Se tivesse possibilidade, investia em audiovisuais” e “à frente das câmaras”. É uma resposta óbvia para quem já viu Alex dançar ou para quem repara que cuida da imagem ao milímetro. De piercing pendente no nariz, óculos de massa e um cabelo afro metricamente cortado, desmancha-se às gargalhadas quando nos conta isto: “Gosto imenso do look dos Metronomy e queria ser o baixista deles”. E o desejo tornou-se realidade por alguns minutos. No último festival Optimus Alive, em Algés, algumas pessoas, e em especial os ingleses, confundiram-no com aquele músico da banda.

Quanto ao laço catita que enverga no pescoço, a explicação é ainda mais simples e com mais gargalhadas: “Comecei a ver demasiados blogues de moda durante este ano”. A arte é quase o seu nome do meio (mais outro para alongar o original). Daqui a uns anos quer ser visto como um artista e não só como músico ou como um designer. Ou melhor, “o objectivo é ser criativo e ser um gajo que faz cenas ou um gajo que faz cenas fixes” (mais gargalhadas).

Vitor diz que o Alex é um “escritor de canções belíssimas” e Ben tem a sensação de que a história do Alex foi retirado da Sétima Arte. Daquele “onde há aquele underdog (oprimido), aquele tipo que tem o talento, mas que não tem possibilidades e, no fim, consegue triunfar”. Se este pode ser o ‘Alex D’Alva Teixeira: O filme’? Alex responde: “Hoje em dia teria de ser contado em forma de web série de baixo orçamento”.